Título: Indústria teme o uso de moeda local no comércio com a China
Autor: Landim , Raquel
Fonte: Valor Econômico, 06/04/2009, Brasil, p. A5

Representantes da indústria veem com receio a proposta de que Brasil e China financiem o comércio bilateral em moedas locais. Os empresários temem que signifique um estímulo à compra de produtos chineses e avaliam que a situação brasileira é confortável e não requer esse tipo de medida para incentivar as trocas entre os dois países.

"Tenho receio desse tipo de operação, porque vai estimular as importações de produtos chineses", disse José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). "Nem o Brasil, nem a China tem problema de liquidez, que é quando essa medida faz sentido", afirmou Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do departamento de comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Na sexta-feira, em Londres, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou em conversa com a imprensa que sugeriu ao colega chinês Hu Jintao que os países utilizem suas respectivas moedas, o real e o yuan, para fortalecer o comércio bilateral. "Propus que a gente comece a discutir que as trocas comerciais entre Brasil e China sejam feitas nas moedas brasileira e chinesa", disse Lula. Segundo o presidente brasileiro, o assunto será discutido novamente em sua viagem a China no fim do mês.

Lula e Hu tiveram uma reunião bilateral na quinta-feira às margens do encontro do G-20, grupo das maiores economias do mundo, que discutiu saídas coordenadas para a crise mundial. Por conta da escassez de crédito, alguns países buscam alternativas ao dólar no comércio internacional. Antes do encontro, a China sugeriu a adoção de nova moeda para as reservas internacionais.

Na avaliação de Castro, da AEB, o objetivo da China é conquistar novos mercados e recuperar o patamar de suas exportações, que foram duramente atingidas pela crise. "E obviamente o Brasil é um grande mercado para a China", disse. Ele explica que se o Brasil receber em yuans pelas commodities que vende ao país asiático não terá outra alternativa senão utilizar os recursos para comprar produtos chineses.

Com mais de US$ 1 trilhão de reservas, a China está promovendo troca de moedas, uma operação conhecida no mercado financeiro como "swap cambial", com alguns parceiros comerciais. Na semana passada, Argentina e China fecharam um acordo desse tipo no valor de 70 bilhões de yuans, o equivalente a US$ 10,2 bilhões. Os exportadores brasileiros dizem que circulam no mercado informações de que o Equador também negocia esse tipo de medida.

A evolução da crise começa a provocar "sérios" problemas cambiais em alguns países do Leste Europeu e da América Latina. Está cada vez mais difícil para Argentina, Equador ou Venezuela financiarem as importações, porque a queda dos preços das commodities reduziu o valor de suas exportações e a turbulência global prejudicou ainda mais sua capacidade de tomar recursos no exterior.

"Só que esse não é o caso do Brasil, que tem US$ 200 bilhões de reservas e não tem problemas de liquidez", disse Giannetti da Fonseca. O risco-país é o indicador que mede a dificuldade de um país para acessar o mercado externo em busca de financiamento. Enquanto a taxa de remuneração dos papéis brasileiros está 3,8% acima dos títulos do Tesouro americano, esse indicador chega a 18% no caso da Argentina e a 34% no Equador.

Giannetti da Fonseca ressalta que o "swap cambial" é um mecanismo de crédito recíproco importante, que pode ajudar quando um dos parceiros enfrenta problemas. Ele acredita que funcionaria, por exemplo, entre Brasil e Rússia, país que também enfrenta restrições de liquidez e é um importante comprador de carnes brasileiras. "Mas não vejo nenhuma necessidade disso para garantir o nível de comércio com a China", disse. (Com agências internacionais)