Título: Solidariedade e milagres
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 20/01/2010, Mundo, p. 17
Além de abrigar 75 haitianos no quintal, morador busca água e comida diariamente. Uma semana depois, duas pessoas são resgatadas
O haitiano Patrick Bouchereau preferiu não esperar a ajuda chegar ao número 16 da Rua Jasmim, no bairro de Delmas 75 ¿ região sudoeste de Porto Príncipe. Todos os dias, esse engenheiro civil de 60 anos dirige cerca de 20 minutos até um ponto de distribuição próximo ao aeroporto, onde retorna com um vasilhame grande cheio de água não potável e comida. Pelo menos 75 sobreviventes do terremoto da semana passada dependem da boa vontade de Patrick, que cedeu o quintal de sua casa para abrigá-los. No caminho, ele confirmou ao Correio, por telefone, que o desespero ainda ecoa pelas ruas da capital do Haiti. ¿Quase todo mundo perdeu alguém ou perdeu uma casa. As pessoas não sabem se suas casas não cairão e se podem entrar no interior delas¿, comentou. ¿Meu terreno é muito grande. Eu estou dormindo com eles do lado de fora. Estou fazendo o que posso para ajudá-los¿, acrescentou.
Enquanto Patrick estende suas mãos para o próximo, braços e suor de socorristas tentam o que parece impossível, uma semana depois da catástrofe: salvar vidas. ¿Obrigada, Deus. Obrigada, Deus¿, balbuciou Ena Zini, com cerca de 70 anos, após ser puxada por uma equipe mexicana dos escombros da Catedral Sacre-Couer, o mesmo local onde morreu a médica e missionária brasileira Zilda Arns. Até o fechamento desta edição, o estado de saúde de Zini era considerado delicado e ela precisava de uma cirurgia. Segundo a rede de TV CNN, Maxime Janvier, filho de Zini, reconheceu a mãe pela foto no site da emissora. ¿Estávamos rezando muito para que isso ocorresse¿, disse ele.
Pierre Louis Ronny deve sua vida a saqueadores e bombeiros russos. Após passar sete dias soterrado, sem água e sem comida, foi resgatado ontem do prédio da empresa de telecomunicações Teleco Haitian, no centro de Porto Príncipe. Apesar de terem resistido por tanto tempo sob os escombros, Zini e Pierre agora precisam enfrentar outra dura realidade. Lotados, os hospitais tentam fazer o que podem pelos milhares de pacientes. No entanto, a catástrofe impede um tratamento digno. O empresário Thierry Bijou, 33 anos, morador de
Pétion-Ville, visitou anteontem alguns hospitais. ¿Eles pareciam o inferno. Havia pessoas jogadas ao chão, com feridas abertas, e moscas por todos os lados¿, descreveu, em entrevista pela internet. O risco de doenças começa a deixar de ser medo para tornar-se uma realidade imediata. Os casos de tétano e gangrena se multiplicam, e os médicos também alertam para possíveis epidemias de sarampo, meningite e outras infecções.
Em entrevista ao Correio, por e-mail, a norte-americana Linda DeGutis ¿ professora de cirurgia e medicina de emergência na Universidade de Yale ¿ admitiu que as infecções de ferimentos são uma grande preocupação. ¿A gangrena, que é a morte do tecido, pode ocorrer se uma lesão for grave o bastante para causar infecções impressionantes ou se houver falta de suprimento sanguíneo na área¿, explicou. ¿Já o tétano pode atingir feridas expostas ao solo contaminado.¿ Segundo Linda, outra ameaça bastante presente é o sarampo ¿ o Haiti apresenta surtos e muitas pessoas não foram imunizadas. ¿Como os desabrigados estão em aglomerações, o risco de exposição a alguém com sarampo é maior. Isso também vale para outras doenças infecciosas¿, alertou.
Linda acredita que os médicos em Porto Príncipe tentam oferecer o melhor atendimento possível, ante a falta de recursos. ¿Eles estão esperando por suprimentos, por mais médicos e enfermeiros. Os hospitais foram danificados ou destruídos, suprimentos se perderam, e o transporte de equipamentos é difícil¿, lembrou. Outra preocupação cada vez mais evidente é com a insegurança. Thierry Bijou disse ter ouvido tiros ¿a noite inteira¿, em Pétion-Ville. Por sua vez, Bouchereau relatou ter visto vários policiais nas ruas, ontem. ¿Perto de minha casa, não tenho sentido a presença de gangues. Meu irmão, que vive em Pétion-Ville, e um amigo de fora, os únicos da região que não tiveram suas casas arrombadas¿, acrescentou.
O clima tenso em Delmas, bairro de Bouchereau, forçou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) a suspender a distribuição de ajuda ¿não alimentar¿. ¿Apesar da difícil situação em Porto Príncipe, trataremos de reiniciar a distribuição de ajuda (não alimentar) nos próximos dias¿, informou o chefe das operações do CICV no local, Riccardo Conti, citado em comunicado da organização, com sede em Genebra.
Visitei alguns hospitais. Pareciam o inferno. Havia pessoas jogadas ao chão, com feridas abertas, e moscas por todos os lados¿
Thierry Bijou, empresário de Pétion-Ville
Relato do terror
¿Ao redor de minha casa, perdemos cerca de cinco pessoas, entre um total de 400. No entanto, perto da casa da minha mãe, morreram 25 de 50 estudantes. Ainda há muitos mortos sob as casas. No dia do terremoto, eu estava em frente ao hotel Quinan, onde minha mulher trabalha. Quando senti a terra tremer, virei o corpo e olhei para o hotel. Parecia um arvoredo balançando ao vento, mas estava intacto. `A terra está tremendo! O que está acontecendo? O que está fazendo!¿, eu gritava. Quando tudo parou, vi que minha mulher estava a salvo. Pensei em ver como estavam umas pequenas casas atrás do hotel. Ao me dirigir até lá, ouvi gritos. Nenhuma casa ficou de pé¿.
Patrick Bouchereau, 60 anos, engenheiro civil, morador de Porto Príncipe
Tragédia leva a corrida por adoção no Brasil
Daniel Brito
As primeiras ligações para a Embaixada do Haiti no Brasil começaram na sexta-feira passada, quando a poeira do terremoto havia baixado e o mundo via em choque as cenas da tragédia em Porto Príncipe. Mulheres e homens de diferentes sotaques, ligando dos mais diversos prefixos, queriam informações sobre as crianças haitianas. Eram pessoas que se ofereciam para ir ao local da catástrofe e salvar a vida de quem perdeu pai e mãe e, em muitos casos, nem sequer tem idade para caminhar com as próprias pernas.
Além das toneladas de donativos, os brasileiros tomaram a iniciativa de ajudar o Haiti adotando crianças órfãs, o que pegou os funcionários da embaixada de surpresa. Não havia nenhuma recomendação do embaixador sobre o assunto. Ninguém registrou as centenas de contatos dos interessados nem contou quantas pessoas se ofereceram por telefone. O fim de semana também foi de muitas ligações, que continuaram na segunda-feira e ontem. ¿Só hoje (ontem), eu atendi mais de 50 pessoas perguntando sobre adoção¿, disse ao Correio uma brasileira que trabalha na representação e preferiu não se identificar.
Idalbert Pierre-Jean, embaixador do Haiti no Brasil, é a favor do acolhimento dos pequenos haitianos. ¿A melhor maneira de assegurar o futuro e a própria segurança das crianças de meu país é dando início ao processo de adoção¿, defendeu. ¿Buscaremos essa alternativa perante o governo brasileiro, até para evitar o tráfico de crianças, que a gente sabe que existe¿, alertou.
Ele pretende conversar ainda hoje com Antonio Simões, subsecretário do Ministério das Relações Exteriores (MRE), designado para atender à representação haitiana no Brasil. Pierre-Jean disse que discutiu superficialmente o assunto por telefone e frisou que não está seguindo determinação de Porto Príncipe. ¿Este é um tema pessoal. O governo não pediu a ninguém. Diante de tantos pedidos (de adoção), busco uma maneira de resolvê-los¿, justificou.
Legislação
Pelas circunstâncias, o diplomata sugere que as leis haitianas e internacionais de adoção sejam temporariamente ignoradas, como por exemplo a visita dos futuros pais ao Haiti para manter contato com as crianças. ¿Por intermédio das ONGs brasileiras que atuam no Haiti, as crianças órfãs viriam ao Brasil nos voos da Força Aérea Brasileira (FAB) e a embaixada canalizaria a análise de cada caso¿, explicou.
O embaixador está confiante que o governo brasileiro acate a sugestão, principalmente porque, segundo ele, o Haiti cumpre todos os requisitos internacionais de adoção. ¿Nossa lei é muito rígida e reconhecida por todos os estatutos de direitos humanos, inclusive a Convenção de Haia¿, citou, lembrando que Estados Unidos, Canadá, França, Espanha e Alemanha são os países que mais acolhem crianças haitianas. ¿E continuam interessados¿, acrescentou. Apesar do que afirmou o embaixador, o Haiti não está entre os países signatários da Convenção de Haia sobre cooperação internacional e proteção de crianças e adolescentes. Isso significa que o processo de adoção só pode ser feito por via diplomática e não pelas organizações internacionais.
Convencer o governo brasileiro não deve ser tarefa fácil para o representante. A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) divulgou ontem nota informando que a adoção internacional (1)não deve ocorrer em situações de instabilidade como guerras, calamidades e desastres naturais, por não ser possível verificar o histórico pessoal e familiar das crianças que se pretende colocar em adoção, como a atual situação no Haiti.
1 - ¿Última opção¿ O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) manifestou-se reticente sobre a medida de adoção. ¿Nossa política é tentar a todo custo encontrar parentes da criança e conseguir a reunificação familiar. A adoção é vista como a última opção, quando todas as outras tiverem fracassado¿, disse a porta-voz do órgão, Veronique Taveau, em Genebra.