Título: A política de Obama para as Américas no palco da OEA
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Fonte: Valor Econômico, 15/04/2009, Opinião, p. A14
Na última reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), em novembro de 2005, ocorreu a cerimônia fúnebre das tentativas dos EUA de obter um acordo de livre comércio no continente. A próxima reunião, que se inicia na sexta em Trinidad e Tobago, não vai ressuscitar a Alca, mas deve se desenrolar em um ambiente de maior distensão e menor antagonismo. A política externa americana, agora sob o comando de Barack Obama, está mudando em várias frentes e não está clara qual será a sua face latino-americana, que poderá começar a ser delineada no encontro. Seu eixo principal girará em torno da apresentação das intenções do governo Obama em relação ao continente - nada prioritário em relação a várias e urgentes preocupações da diplomacia americana - e não se deve esperar nada muito além disso.
Obama tem revelado sua política externa com desenvoltura em várias frentes. Um de seus traços é a rejeição a pontos de vista arraigados por anos de conservadorismo republicano e a vontade de injetar alguma dose de pluralismo em um mundo onde está ameaçada a hegemonia americana. No caso da América Latina, isto significa de imediato saltar o obstáculo de Cuba, que desde fevereiro de 1962 sofre um pesado embargo econômico dos EUA e convive com um emaranhado de sanções em suas relações bilaterais. O palco da sexagenária OEA é simbólico. Em uma reação à radicalização da revolução cubana, que em 1959 entronizou Fidel Castro no poder na ilha, os EUA apoiaram intensamente a partir daí todas as ditaduras militares que se espalharam por todo o continente, a ponto de a OEA se identificar com os estritos interesses americanos na região.
O mundo mudou, mas Cuba, passivamente, estimula rebeliões antiamericanas, mais pela força de atração ideológica do que pelo exemplo dos resultados obtidos pelo regime castrista. Enquanto que até a queda do muro de Berlim Cuba era o guia de grupos armados que professavam alguma forma de marxismo, com a falência do sistema soviético passou a atrair forças heterogêneas nacionalistas que pouco têm a ver com movimentos de guerrilha ou sequer de esquerda.
Hugo Chávez, presidente da Venezuela, o maior defensor de Castro no continente, é um ex-militar golpista que prega uma revolução bolivariana, cuja ideologia é um pobre amálgama de velhos clichês. Ele patrocina a Alba, junto com o líder indígena boliviano Evo Morales, ligado ao sindicalismo, o "sandinista" Daniel Ortega, da Nicarágua, com o apoio de Rafael Corrêa, um economista populista formado em universidades americanas. A esse bloco poderia se acrescentar a oposição mais moderada aos EUA do casal Kirchner, na Argentina, e de Fernando Lugo, um ex-bispo de esquerda que governa o Paraguai. O Brasil segue uma política pragmática em relação aos EUA, que lhe garantiu relações cordiais com George W. Bush e que provavelmente lhe garantirá o mesmo com Obama.
O antiamericanismo dos "bolivarianos" é uma velha arma de mobilização interna, mas com Barack Obama ela deve perder muito de sua eficácia, já bastante arranhada pelos efeitos da crise econômica global na América Latina. Obama deu seu cartão de visitas aos chefes de Estado da OEA anteontem, ao eliminar a proibição de viagens de cubano-americanos à ilha e o limite para remessas de dinheiro, além de permitir que empresas de telecomunicações prestem serviços ao país. O fim do embargo dependerá de contrapartidas efetivas do governo cubano, hoje envolto em uma operação complexa de "abertura" controlada cujos limites não são plenamente visíveis.
O fim da hostilidade aos países cujos governos fazem explícita oposição aos EUA, como a Venezuela, e uma política de cooperação que não envolva a aceitação de longa agenda de princípios e sim colaborações específicas que possam no futuro ampliar o leque de convergências - como parece ser a intenção de Obama - formam o "cachimbo da paz" que poderá ser fumado em Port of Spain.
O governo Lula continuará desempenhando o papel de mediador de conflitos na região, em uma tarefa que será aplainada pela agenda de Obama de buscar acordos em vez de conflitos. O principal problema para o Brasil não serão os EUA, como não eram com Bush, e sim seus turbulentos vizinhos.