Título: Crise faz taxa de câmbio voltar à média histórica
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 20/04/2009, Finanças, p. C3

A crise financeira mundial fez a taxa de câmbio voltar à sua média histórica, mostram dados divulgados pelo Banco Central, que comparam o valor do real com as moedas dos 15 países que absorvem a maior parte das exportações brasileiras. Essa é uma das explicações, segundo a autoridade monetária, do porquê a desvalorização do câmbio ocorrida desde a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro, não aumentou a inflação.

O BC calcula a taxa real de câmbio, ou seja, descontada a inflação medida pelo IPCA, com dados a partir de janeiro de 1988. É um número índice, com base 100 em junho de 1994. Quanto maior o número, mais desvalorizada está a taxa de câmbio e, quanto menor, mais valorizada. Em março, esse índice foi de 97,5, bem próximo da média de 99,4 observada nos últimos 21 anos.

O câmbio voltou à media histórica em virtude da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro, que provocou uma valorização de 29,25% do dólar ante o real, até o fim de março. "No regime de câmbio flutuante, a taxa de câmbio volta para a sua média histórica mais rapidamente", afirma uma fonte técnica do Banco Central.

De fato, os dados do BC mostram que, desta vez, a sobrevalorização cambial foi mais curta e menos intensa do que no passado. A taxa de câmbio esteve valorizada durante 24 meses, entre outubro de 2006 e setembro de 2008. No pico da valorização, observada em agosto de 2008, o índice caiu a 80,14. A média do índice no período foi de 90,1.

No Plano Real, quando vigorou um regime de taxas administrada, a taxa de câmbio esteve valorizada durante 55 meses, de julho de 1994 a janeiro de 1999. O pico da valorização cambial, de 67,2, ocorreu em março de 1997, e a média foi de 72 no período. Na visão do BC, a desvalorização cambial representou um ajuste da taxa de câmbio à sua média histórica, por isso o repasse à inflação tende a ser menor.

Os estudos técnicos feitos pela autoridade monetária mostram que, do ponto de vista de inflação, o que conta não é apenas o tamanho da desvalorização. Outros fatores têm pesos importante, como, por exemplo, a percepção dos agentes econômicos sobre se a desvalorização cambial é permanente ou não, o grau de aquecimento da economia e o desvio da taxa de câmbio em relação à sua média histórica. A desvalorização cambial atual, em particular, foi acompanhada por uma deflação mundial, o que ajuda a segurar os preços dos produtos importados.

O BC pondera que, embora o repasse cambial não tenha ocorrido até agora, o risco não foi completamente eliminado.

A desvalorização cambial ocorrida em 1999, por exemplo, corrigiu um longo período de sobrevalorização cambial, por isso o impacto na inflação foi menor. Entre 2001 e 2002, o impacto inflacionário foi maior porque, naquele período, a taxa real de câmbio estava desvalorizada em relação à média histórica. "A análise do repasse cambial para a inflação tem que levar em conta onde a taxa estava quando ocorre a depreciação", diz a fonte do Banco Central.

É possível que, na mais recente valorização cambial, as empresas tenham aproveitado a queda do dólar para engordar as suas margens, sem repassar o ganho para os preços.

A partir de setembro, quando ocorreu uma depreciação cambial acompanhada da desaceleração da economia, as empresas teriam queimado parte da gordura que havia sido acumulada anteriormente.

Desde o início de abril, a taxa de câmbio entrou em uma nova trajetória de valorização, que acumula ganho de 6%. Ainda é cedo, entretanto, para dizer se essa valorização vai ajudar a baixar a inflação. Como a taxa está partindo da sua média histórica, a tendência é que o repasse cambial seja menor. Os estudos do Banco Central mostram ainda que o repasse costuma ser assimétrico: é maior quando ocorre depreciação cambial e menor nas valorizações.

Uma das questões é se a valorização cambial é permanente e em que nível a cotação do dólar vai se estabilizar. "Alguns "hedge funds" estão apostando em uma taxa de câmbio de R$ 2,00", afirma uma outra fonte do BC. "Mas tem "hedge fund" que aposta que a cotação vai a R$ 2,40."