Título: Gripe suína derruba ações de empresas de carnes do Brasil
Autor: Rocha , Alda do Amaral
Fonte: Valor Econômico, 28/04/2009, Internacional, p. A12

Empresas brasileiras já sentem o efeito do pânico decorrente dos casos de gripe suína em humanos no México, Estados Unidos, Canadá e Escócia. Ontem, as ações de JBS, Marfrig e Minerva despencaram na bolsa paulista - ainda que apenas a primeira tenha produção de carne suína nos EUA - por conta do temor de que a doença reduza o consumo do produto ao redor do mundo. Os papéis da JBS recuaram 12,23%; os da Marfrig, 4,54%; e os do Minerva, 9,59%.

Por trás do mau humor dos investidores está a decisão de China e Rússia de suspender as importações de carne suína do México e de alguns Estados dos EUA que fazem fronteira com o território mexicano. Indonésia e Tailândia também proibiram as importações.

Em seminário sobre o setor de aves e suínos, na feira Avesui, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto, admitiu que haverá impacto econômico, mas disse não querer especular se será positivo ou negativo. Comentou, porém, que se não houver casos no Brasil, "poderá ser positivo".

Camargo Neto usa a expressão "gripe mexicana" em vez de "gripe suína" para se referir à doença, argumentando que "não há animal doente, a propagação é de homem a homem. Trata-se de um problema sério de saúde pública". Por isso, defendeu que os cidadãos sejam informados sobre como proceder em caso de contágio e que a vigilância sanitária seja reforçada nos portos e aeroportos do Brasil.

O dirigente disse que "não há qualquer problema em consumir carne suína" e fez questão de diferenciar a situação atual da que ocorreu na época da gripe aviária na Ásia e na Europa, entre 2005 e 2006. Naquele episódio, aves vivas contaminadas pelo vírus H5N1 o transmitiam para humanos por meio de contato. Milhões de aves tiveram de ser sacrificadas por causa da doença. No caso da gripe suína, o vírus envolve transmissão em pessoas e ainda não foi isolado em animais até agora, segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE).

A mesma OIE afirma que, atualmente, "apenas descobertas relacionadas à circulação do vírus em suínos em zonas de países que têm casos humanos da doença justificariam medidas comerciais [embargos] em relação à importação de suínos desses países".

Apesar do comunicado da OIE, países já suspenderam as importações, derrubando ações de empresas que exportam carne suína. A JBS, que tem indústrias de suínos nos Estados de Iowa, Minnesota e Kentucky (que não fazem fronteira com o México), registrou a pior queda do índice Bovespa ontem. Nos EUA, Tyson e Smithfield também caíram, 8,87% e 12,4%, respectivamente, na bolsa de Nova York.

Relatório do Crédit Suisse considera as notícias "ligeiramente negativas" para os exportadores de proteínas do Brasil. "Considerando que [a doença] não irá contaminar outros animais (frango e aves) e que as exportações de carne suína representam cerca de 6% a 8% das vendas totais de Perdigão e Sadia, deve haver impacto negativo marginal nos resultados".

Mesmo sem operações de suínos fora do Brasil, a Marfrig também viu suas ações caírem, mas bem menos que as da JBS, que está mais exposta a um possível recuo nas vendas de carne suína.

Em comunicado, a JBS disse que sua meta de crescimento de receita e rentabilidade permanece inalterada, apesar da gripe suína. "A JBS é basicamente uma companhia de carne bovina (...) e tem uma operação de carne suína que representa 14% da sua receita líquida". De acordo com a empresa, uma eventual restrição nas exportações afetaria menos de 1,5% da receita consolidada. A empresa informa ainda que compra, no mercado, suínos cujos preços podem recuar por causa de possível queda nas vendas. Assim, avalia que é possível manter as margens na unidade de negócios de carne suína.

A queda no consumo é certa, admitem fontes da indústrias e analistas, mas resta saber quanto tempo durará. No caso da gripe aviária, inicialmente o consumo recuou em vários países da Ásia e da Europa, onde ocorreu a doença. E houve efeito sobre as exportações brasileiras de carne de frango que, aos poucos, se recuperaram.

"Há uma reação emocional muito grande. Acredito que a associação [da doença] com a carne suína vai durar apenas algumas semanas, e o consumo não será afetado", afirmou uma fonte da indústria. Mas um analista do setor observa que o fato de a doença ser transmitida entre humanos, e rapidamente, aumenta o pânico e isso deve afetar o consumo.

A incerteza em relação à demanda também fez os mercados futuros de grãos e de suínos despencarem ontem nos EUA.