Título: G-8 agrícola começa sem o primeiro escalão do Brasil
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 17/04/2009, Internacional, p. A12
O Brasil entra prejudicado no embate entre países exportadores e protecionistas no primeiro cúpula agrícola do G-8, neste fim de semana, devido à ausência de seu ministro de Agricultura na reunião que discutirá estratégias para reforçar a produção e evitar futuras crises alimentares.
O G-8, grupo dos sete países mais ricos do mundo (mais a Rússia), convidou para a reunião agrícola deste fim de semana na Itália os ministros do G-5 (Brasil, China, Índia, África do Sul e México), além de Argentina, Austrália e Egito, para o que pode ser o início do redesenho de políticas agrícolas.
Na reunião do G-8 com os emergentes, a expectativa é de definição de uma agenda que passa também por luta contra a especulação no setor agrícola, encorajamento aos investimentos nos países pobres e melhora na produtividade agrícola e na cadeia alimentar.
A enorme alta de preços de alimentos no fim de 2007 e começo de 2008 provocou protestos de rua em países como Egito, Indonésia, Filipinas, Bangladesh e Haiti. Segundo as Nações Unidas, apesar da queda no ano passado, a média do custo dos produtos agrícolas ainda está até duas vezes mais alta do que há quatro ano.
"Sabemos que, se os preços do petróleo começarem a subir de novo, quase certamente os preços dos alimentos vão subir junto. Aí, uma nova crise alimentar global ainda será uma realidade", diz David Navarro, coordenador de um Grupo da ONU sobre segurança alimentar.
Sobretudo a FAO alerta para o problema estrutural da agricultura. O aumento da população e do nível de vida em países em desenvolvimento pode conduzir à falta de alimentos e ameaçar a estabilidade mundial. Uma saída é dobrar a produção de alimentos até 2050, em meio a desafios envolvendo impacto sobre mudanças climáticas, por exemplo. Arábia Saudita e Coreia do Sul já buscam terras em outros países para garantir o abastecimento futuro.
O Brasil é um dos líderes mundiais na área agrícola, um dos celeiros do mundo. E uma das bandeiras do governo Lula é incluir o país em tomadas de decisões na governança global. Mas o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, não participará do primeiro G-8 agrícola da história, que quer pavimentar o terreno de futuras políticas agrícolas.
A ausência do ministro da Agricultura limita o papel que o país poderia ter na negociação. Por melhor que sejam os técnicos que representarão o Brasil, a falta de uma personalidade política do setor dá um sinal negativo e exclui o país entre os pesos pesados que negociarão sobretudo informalmente.
Um negociador europeu nota que "sem ministro não dá para impulsionar uma agenda positiva do país" nesse tipo de reunião.
A assessoria de imprensa do ministro Stephanes informou que o ministério avaliou que "a pré-agenda não carecia da necessidade de participação efetiva do Ministério e foi sugerido ao Itamaraty que o embaixador José Marcondes (represente na FAO) represente o país".
De imediato, grupos agrícolas do G-8 defendem a criação de estoques globais de produtos agrícolas para melhorar a estabilidade da oferta e evitar choque de preços. O Brasil é reticente à ideia, desconfiando que teria de pagar parte da conta como um dos produtores mais competitivos.
O grupo da ONU sobre segurança alimentar, representado por Navarro, estima que o futuro da produção alimentar não pode se basear só na agricultura em grande escala e que é preciso intensificar pequena produção, cooperativa e outros métodos, indo mais na direção oposta da agricultura comercial brasileira.
Também a França e a Itália pressionam pela ideia de políticas agrícolas locais como uma maneira de promover o desenvolvimento da agricultura, e normalmente com subsídios. A China é dada por alguns analistas como exemplo de país que garante sua segurança alimentar com gastos crescentes na área agrícola. A questão, porém, é como os chineses gastam esse dinheiro, notam outros especialistas, evitando dar uma carta de boa conduta a Pequim.
De seu lado, o Brasil nota que os produtos agrícolas ainda são uma parte muito pequena do comércio internacional. Só 6,5% do arroz é comercializado entre países, e 17% do trigo. Justamente a maior volatilidade de preços tem afetado esse tipo de produtos. Segundo a FAO, o preço do arroz em 2008 ainda era 80% maior do que em 2007. Como o comércio é pequeno, a entrada de novo produtor provoca instabilidade no mercado. Ou seja, o que falta é mais comércio.
Aparentemente, o país conseguiu retirar do texto da declaração da reunião a proposta de uma estratégia global de segurança alimentar que passaria pela redução do consumo de carnes em favor de uma "dieta mais balanceada" com produtos mais locais. Mas ninguém garante que o tema não volte neste fim de semana.