Título: Governo procura vencer defasagem dos indicadores
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 04/05/2009, Especial, p. F2
Depois de promover fortes estímulos fiscais e monetários, a equipe econômica do governo se concentra agora em coordenar as expectativas de empresas e consumidores para evitar a profecia auto-realizável de um número negativo no Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. O diagnóstico de economistas do Banco Central e do Ministério da Fazenda é que as ações anticíclicas, que já mostram os primeiros resultados, levam algum tempo para terem efeitos plenos sobre a economia real. Até lá, será preciso evitar uma onda de pessimismo em meio à divulgação de indicadores defasados sobre a atividade.
Em tese, informa uma fonte do governo, há espaço fiscal para novas medidas anticíclicas, graças à redução da meta de superávit primário do setor público, de 3,8% para 2,5% do PIB. Existe ainda a poupança de 0,5% do PIB que se encontra separada no fundo soberano.
A estratégia do governo, porém, será preservar esse colchão fiscal para manter os investimentos públicos, num eventual cenário de agravamento da crise financeira mundial. Mesmo porque, na avaliação dessa fonte, as medidas anticíclicas adotadas até aqui são suficientes para fazer a economia crescer a um ritmo de cerca de 4% no último trimestre de 2009, comparando com o mesmo período do ano passado. O ritmo forte do fim do ano torna mais provável uma expansão de 4,5% em 2010, retomando patamares mais próximos aos de antes da crise.
Na frente monetária, o BC seguirá testando, na prática, os limites para a queda de juros, que não dependem apenas de qual seria a taxa de juros de equilíbrio. A avaliação é que são grandes as chances de a economia operar com alto nível de ociosidade em 2010, não só em virtude da queda da atividade registrada neste ano, mas também porque espera-se a maturação dos investimentos feitos nos últimos anos. Os cortes de juros a partir de junho, porém, terão efeitos concentrados em 2010, dadas as defasagens da política monetária sobre a atividade, e efeitos reduzidos sobre o PIB de 2009.
Uma fonte do BC nota que nunca, em quase dez anos do sistema de metas de inflação, as projeções para o crescimento da economia estiveram tão dispersas. O consenso é uma retração entre 0% e 0,5% do PIB em 2009, mostra a pesquisa Focus do BC, que levanta as projeções de cerca de cem analistas econômicos do mercado financeiro. O desvio padrão, uma medida de dispersão, é de 1%. Em termos práticos, esse indicador diz que dois terços das projeções de crescimento do PIB se encontram distribuídos entre queda de 1% e expansão de 1%.
A projeção oficial do BC, feita em março, antes de surgirem dados mais favoráveis sobre o desempenho da economia, é uma expansão de 1,2% do PIB em 2009. Mas esse percentual tão exato não deve ser levado à risca. As projeções oficiais são apresentadas na forma de um leque de probabilidades, que reflete o alto grau de incerteza da evolução do PIB em torno da tendência central de 1,2%. Nele, os riscos de a economia terminar 2009 no campo negativo são de 25%.
Na ponta mais otimista, está a Fazenda, com um projeção de expansão do PIB de 2%. O número, entretanto, pode ser revisto para baixo, a depender principalmente dos próximos indicadores sobre a produção industrial.
Um dos problemas é que essas projeções econômicas levam em conta o histórico estatístico para prever o que vai acontecer com o PIB. Mas, em meio a uma crise financeira sem precedentes na história recente e diante do fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos do Brasil, o passado é pouco útil para antever o futuro. "O pressuposto é que a reação à essa crise financeira será igual às das anteriores", analisa o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. "O que distingue essa crise das anteriores é que, pela primeira vez, o Brasil tem espaço e vem adotando políticas monetárias e fiscais anticíclicas."
As projeções de crescimento econômico feitas pelos analistas ainda estão fortemente sensibilizadas pela queda do PIB do último trimestre de 2008, que traz um carrego estatístico negativo, o chamado "carry over", de 1,5% para 2009. Avalia-se dentro do governo que esse fato, por si só, é muito pouco para determinar como será a evolução do PIB. "Conhecer o carrego estatístico do ano anterior não é suficiente para determinar o PIB deste ano", ponderou o diretor de Política Econômica do BC, Mario Mesquita, durante a apresentação do relatório de inflação de março. Segundo a autoridade monetária, desde 2004 o PIB ficou em média 3,5% maior do que o carrego estatístico herdado do ano anterior.
Em junho, quando se espera que a economia esteja em firme processo de recuperação, serão divulgados os dados do PIB do primeiro trimestre, certamente negativos. Eles vão decretar que a economia se encontra tecnicamente em recessão, após dois trimestre seguidos de retração. Os dados mostrando a recuperação econômica, relativos ao segundo trimestre, sairão apenas em setembro. "Será fundamental o gerenciamento das expectativas para evitar que as pessoas fiquem olhando para o retrovisor", afirma o economista da Unicamp e vice-presidente de finanças da Caixa Econômica Federal, Marcio Percival, que organiza um seminário na semana da divulgação do PIB, em junho, para discutir o ritmo da atividade econômica.
Ainda não houve tempo para todas as medidas anticíclicas terem efeito na economia, diz Barbosa, da Fazenda. Ações como o corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de automóveis e eletrodomésticos da linha branca, com caráter mais emergencial, evitaram uma queda mais forte do PIB neste início do ano. Mas representam, por outro lado, apenas a antecipação do consumo que aconteceria mais tarde. A recuperação permanente da demanda depende de os estímulos monetários e fiscais surtirem efeito em fatores como o crédito e a renda.
A distensão monetária, por exemplo, começou de fato em dezembro, quando os juros futuros caíram fortemente, refletindo, por estranho que pareça, a decisão do BC de manter a taxa básica inalterada naquele momento. Em janeiro e em março, o BC promoveu movimentos mais fortes nos juros do que os esperados pelo mercado financeiro, derrubando ainda mais os juros futuros e produzindo novos estímulos. Os efeitos dos cortes de juros sobre a economia ocorrem com defasagem entre três e seis meses. Eles começam a aparecer já neste trimestre, mas atingem seus maiores efeitos no segundo semestre deste ano.
O governo produziu ganhos expressivos de renda, diz Barbosa, ao cortar em R$ 5 bilhões o Imposto de Renda (IR) e ao manter a política de reajuste do salário mínimo, que representa uma injeção de R$ 21 bilhões na economia. Mas os efeitos desses estímulos se distribuem ao longo do ano, com efeito cumulativo. O IR, por exemplo, representa uma injeção de R$ 400 milhões por mês.
O BC calcula que haverá ganhos importantes em virtude da queda da inflação. As estimativas são de que a massa salarial tenha um incremento de 2,5%, dos quais 2% são ganhos de renda real, advindos da queda da inflação, e 0,5% representa o aumento do emprego. O desemprego médio tende a aumentar de 7,9%, em 2008, para entre 8,5% e 8,8%, em 2009, mas haverá expansão dos postos de trabalho. O aumento da massa salarial previsto é de 3,5%, quando o BC incorpora nos seus cálculos o reajuste dos benefícios previdenciários e do funcionalismo público e o aumento dos pagamentos do seguro-desemprego.
Há também o efeito dos aumentos dos investimentos públicos, lembra Barbosa. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), afirma, é visto com certo ceticismo por economistas de fora do governo porque, em geral, o termômetro usado para companhar seu andamento é a execução frente os valores constantes no Orçamento. Mas, pondera, tem havido desde 2007 um incremento nos investimentos efetivos, o que, ao fim e ao cabo, é o que conta do ponto de vista de estímulo da demanda agregada.
Somados, os investimentos do PAC e da Petrobras subiram de 1,6% para 2,2% do PIB entre 2007 e de 2008. Neste ano, haverá um incremento para 2,9% do PIB. "Nossa tarefa agora é assegurar a execução do que foi anunciado", explica Barbosa. "Esses investimentos públicos têm um efeito multiplicador sobre a economia." O programa habitacional "Minha Casa, Minha Vida", nos cálculos do governo, deverá chegar à economia real apenas a partir do último trimestre deste ano, ajudando a alavancar os investimentos da economia.