Título: Fluxo já dá sinais de recuperação
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 07/05/2009, Finanças, p. C1
Dados divulgados ontem pelo Banco Central registram uma visível melhora nas condições do mercado de câmbio, com um superávit de US$ 1,430 bilhão em abril, o maior desde que o país foi atingido pela crise financeira, expansão das receitas com exportações e sinais de retorno das fontes de financiamento externo.
É essa mudança nas condições de mercado, na avaliação do BC, que está por trás da recente valorização da taxa de câmbio e permitiu que, anteontem, fossem retomados os leilões swap cambial reverso, em que, na prática, a autoridade monetária compra dólares no mercado futuro.
A valorização do real, que prejudica os exportadores, é o centro de uma controvérsia envolvendo economistas do governo. Enquanto o BC diz que o movimento do dólar reflete a melhora de fundamentos econômicos, no Ministério da Fazenda afirma-se que é fruto dos altos juros vigentes no país, que atraem capitais especulativos.
A controvérsia, porém, não deverá levar a mudanças nas políticas monetária e cambial. O BC sustenta que mantém o princípio de não atuar com vistas a determinar o preço do dólar. O leilão de anteontem, segundo esse entendimento, enquadra-se na diretriz de agir apenas para evitar volatilidade na taxa de câmbio, má formação de preços e de fortalecer e melhorar a posição em moeda estrangeira do governo. O BC descarta ainda cortar juros para conter a valorização do câmbio, já que, no seu entendimento, a política monetária tem como único objetivo combater a inflação.
Ontem, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse em teleconferência para empresários gaúchos que, com a venda de US$ 3,4 bilhões, o BC praticamente zerou sua posição em câmbio no mercado futuro. Antes da crise, o BC tinha uma posição comprada de US$ 22 bilhões. Depois de vender US$ 33 bilhões para socorrer empresas que estavam vendidas em dólar e dar liquidez a investidores estrangeiros que deixavam o país, o BC chegou a ficar vendido em US$ 11 bilhões. Desde então, essa posição vinha sendo desfeita nos vencimentos dos contratos de swap.
O fluxo cambial de abril mostra que, de fato, há mais dólares no mercado. O resultado foi puxado sobretudo pelo saldo comercial, que apresentou alta de 58% entre março e abril, chegando a US$ 4,917 bilhões. A média diária das exportações cresceu 24% no período, atingindo o volume de US$ 690 milhões em abril.
Também houve ligeira melhora nos fluxos de capital. No segmento financeiro, no qual são registrados os movimentos de capitais, serviços e rendas, houve uma queda de 10,6% no déficit, que fechou abril em US$ 3,487 bilhões. A natureza exata desses capitais só será conhecida no fim do mês, quando serão divulgadas as estatísticas do balanço de pagamentos, mas sabe-se que há retomada nos investimentos em Bolsas.
Além desse fluxo positivo de dólares, a melhora das expectativas também contribui para a valorização do câmbio. O superávit comercial esperado pelo mercado financeiro para 2009 subiu de US$ 13 bilhões para US$ 17 bilhões desde fins de fevereiro, segundo a pesquisa Focus do BC, que consulta cerca de 100 analistas. O déficit esperado em conta corrente encolheu de US$ 25 bilhões para US$ 19 bilhões.
A melhora dos termos de troca e a queda do risco são considerados, pelo BC, centrais na valorização da taxa de câmbio. Historicamente, há uma forte correlação negativa entre o preço das commodities e a taxa de câmbio. Quando o preço das commodities sobe, o dólar cai, e vice-versa. Essa correlação se mantém nesta crise. Do dia da quebra do banco Lehman Brothers, em 15 de setembro, até o dia 5 de dezembro, o preço das commodities, num indicador que exclui combustíveis, caiu 32%, enquanto que a cotação do dólar subiu 37%. Mais recentemente, desde o início de março, o índice de commodities subiu 17,12%, e a cotação do dólar caiu 13,59%.
No caso do risco Brasil, há uma correlação positiva. Quando o risco sobe, o dólar também sobe; quando o risco cai, o dólar vai junto. Esse vínculo continua vivo. Da queda do Lehman Brothers até 5 de dezembro, o risco medido pelos "credit default swaps" (CDS) subiu de 192 pontos para 417 pontos, em um período em que a cotação do dólar subiu 37%. Do início de março para cá, o CDS caiu de 432 para 247 pontos, e o dólar caiu 13,59%.
O BC não nega o efeito que os altos juros têm sobre o dólar. Mas pondera que esse fator não é preponderante. Pela teoria, quanto mais altos for a diferença entre os juros dentro do país e fora dele, maior o ingresso de capitais estrangeiros, o que puxa o câmbio para baixo. Nessa crise aconteceu o contrário: o câmbio se desvalorizou enquanto o diferencial de juros aumentava; e se valorizou em meio à queda do diferencial.
Da quebra do Lehman Brothers até o dia 16 de dezembro, o diferencial de juros aumentou de 11,75 para 13,5 pontos percentuais, já que o BC manteve sua taxa básica em 13,75% ao ano no período e o Federal Reserve reduziu a sua de 2% para 0,25% ao ano. Apesar disso, a cotação do dólar subiu 31,2%. Mais recentemente, o diferencial de juros caiu, mas o câmbio se valorizou. Do dia 21 de janeiro para cá, o diferencial de juros encolheu de 13,5 para 10 pontos percentuais, depois que o BC cortou sua taxa de 13,75% 10,25%, enquanto o Fed manteve a sua em 0,25%. O câmbio se valorizou 10,3%.
O Brasil não é o único país que teve valorização do câmbio. Do início de março para cá, o rande sul-africano teve valorização de 20,7%; o peso mexicano, de 15%; a lira turca, de 10,2%; o rublo russo, de 9,25%; o peso chileno, de 9,4%; e o dólar canadense, de 9,4%. Nesse grupo, há países com juros baixos, como o Canadá e o Chile, e outros com juros altos, como a Turquia e a Africa do Sul.