Título: Exportador vende e dólar cai
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 07/05/2009, Finanças, p. C1

A expectativa de que o dólar continue a perder valor em relação ao real tem levado os exportadores a vender moeda americana em volumes cada vez maiores no mercado à vista, ampliando o ritmo de valorização do real. Ontem, o dólar caiu mais 1,72%, para R$ 2,111, a menor cotação desde 30 de outubro de 2008. Neste ano, a desvalorização é de 9,55%.

O ritmo de recuperação das exportações em meio à crise externa e o aumento no superávit comercial brasileiro têm surpreendido positivamente o mercado. Mas os exportadores têm ido além: ingressaram no país com mais dólares do que as mercadorias efetivamente embarcadas. Em abril, esse movimento foi o mais forte deste ano: o câmbio contratado para exportação, de US$ 13,8 bilhões, superou em US$ 1,5 bilhão o total embarcado, de US$ 12,33 bilhões, segundo cálculos do Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco com base em dados do Banco Central.

As vendas de dólar dos exportadores se intensificaram na última semana de abril: do dia 27 ao dia 30, a média diária de câmbio contratado para exportação foi a US$ 1,373 bilhões, um aumento de 164% na comparação com a média diária de US$ 510 milhões em abril até o dia 24.

No acumulado do mês, os exportadores ingressaram no país com US$ 4,917 bilhões a mais do que os importadores enviaram para fora, compensando o saldo líquido negativo no segmento financeiro de US$ 3,487 bilhões. Assim, os ingressos líquidos no câmbio contratado em abril foram de US$ 1,43 bilhão, o maior valor desde setembro, quando a crise internacional atingiu em cheio o Brasil.

Isso não quer dizer, no entanto, que as linhas de crédito à exportação estejam mais disponíveis ou baratas e venham sendo contratadas em volumes maiores. Na verdade, o exportador tem vendido é o dólar à vista (não o financiado) que vinha mantendo em contas no exterior. Tem tomado também um volume maior de financiamento direto do importador.

Já as caras linhas de financiamento à exportação atraem cada vez menos interesse. Em abril, o total fechado de Adiantamento de Contrato de Câmbio, o financiamento à exportação de até 360 dias, foi de US$ 2,4 bilhões, uma queda de 26% na comparação com março.

"Mesmo considerando-se as linhas de crédito à exportação em dólar do Banco Central, tomar dinheiro em reais está hoje mais barato", revela José Augusto Durand, diretor de negócios de tesouraria de atacado do Itaú BBA. Por isso, dos US$ 2 bilhões em linhas externas oferecidos pela autoridade monetária em leilão na segunda-feira, só US$ 800 milhões foram tomados.

Durand compara: no último leilão do BC, o custo de uma linha de um ano foi de Libor, a taxa interbancária de Londres, mais 0,85% ao ano, o que significaria um custo total de 2,67% ao ano. No mercado interno, um banco conseguiria tomar uma linha indexada ao dólar por 2,01% ao ano de custo total ontem. No início da semana, quando aconteceu o leilão do BC, o custo da linha do banco no mercado interno era ainda menor: 1,80% ao ano.

Se um banco de primeiríssima linha fosse procurar uma linha de ACC no mercado externo, junto a bancos estrangeiros, teria de pagar ainda mais, algo em torno de 1% a 1,5% ao ano sobre a Libor, o que significaria um custo total de 2,82% a 3,32% ao ano, na comparação com os 1,80% a 2% no mercado interno brasileiro. "As linhas externas estão muito caras", afirma Durand.

As linhas indexadas ao dólar no mercado interno estão comparativamente mais baratas do que as linhas externas por causa do interesse cada vez maior dos investidores estrangeiros em desmontar suas posições compradas em dólar contra o real no mercado futuro, diante das perspectivas otimistas para o Brasil.

Os rumores de que o governo brasileiro obterá o grau de investimento também pela Moody"s têm contribuído mais para trazer recursos externos. "O mercado considerou positivo os primeiros resultados dos testes de estresse dos bancos americanos que vazaram ontem", comentou Paulo César Souza, diretor comercial do Société Générale. Os resultados oficiais serão conhecidos hoje.

Com a calmaria nos mercados internacionais e menor aversão a risco, o investidor estrangeiro, que estava comprado em dólar mais cupom cambial (DDI) na BM&FBovespa em um total de US$ 7,185 bilhões no dia 27 último reduziu essas posições para US$ 2,474 bilhões no dia 5 de maio, o menor valor desde o dia 10 de setembro, antes de a quebra da Lehman Brothers desencadear a crise cambial no Brasil. No dia 21 de novembro, essas posições compradas chegaram a US$ 14,43 bilhões.

O desmonte das posições compradas em dólar e DDI dos estrangeiros, na prática, significa venda líquida de dólar e de cupom cambial no mercado futuro pelos estrangeiros de US$ 12 bilhões desde o dia 21 de novembro e de US$ 4,7 bilhões desde o dia 27 de abril, o que ajuda a derrubar o valor do dólar e o cupom cambial. Para equilibrar mais linhas externas e internas e reduzir a volatilidade no câmbio, o BC atuou no mercado futuro e comprou US$ 3,4 bilhões em leilão de swap reverso anteontem.