Título: Solidariedade internacional
Autor: Seixas, Maria Fernanda
Fonte: Correio Braziliense, 19/01/2010, Mundo, p. 18

Doações de recursos para ajudar a amenizar efeitos do terremoto chegam a US$ 1,3 bilhão. Valor equivale a quase 20% do PIB anual haitiano

Há uma semana, quando jornais de todo o mundo noticiavam o terremoto de proporções épicas que devastou o Haiti em 12 de janeiro, dezenas de países deram início a um impressionante levante de ajuda à nação caribenha. Sete dias após a tragédia, o esquema de cooperação internacional se tornou um dos maiores já realizados após uma catástrofe natural. O montante doado até agora passa de US$ 1,3 bilhão (veja quadro) e equivale a cerca de 18,5% do Produto Interno Bruto (PIB) haitiano de 2008, estimado em US$ 7 bilhões.

O presidente da vizinha República Dominicana, Leonel Fernández, estimou ontem que serão necessários pelo menos US$ 2 bilhões anuais para que o Haiti consiga se reerguer. ¿Estaríamos falando de um programa de cinco anos e de uns US$ 10 bilhões¿, disse. Fernández ainda cobrou a existência de ¿uma autoridade central no Haiti que faça fluir a assistência que está chegando, para que o impacto da ajuda humanitária surta o efeito desejado¿.

O acúmulo de doações está em constante atualização. O Brasil, que havia liberado US$ 15 milhões, anunciou ontem novos US$ 4,8 milhões para o país atingido pelo terremoto. Em nota, o Ministério do Planejamento afirmou que a ação visa à implementação de projetos humanitários para amenizar a situação de fome da população e melhorar as condições sanitárias do Haiti.

Já na Europa, em uma reunião com 27 ministros de Desenvolvimento, foi decidida uma nova ajuda humanitária em nome da União Europeia (UE), que, no total, enviará cerca de US$ 590 milhões. Miguel Angel Moratinos, ministro de Assuntos Exteriores da Espanha, cujo país exerce a presidência rotativa da UE, declarou que a intenção é enviar um sinal de solidariedade aos haitianos. ¿Com esse pacote de ajuda, será possível iniciar as tarefas imediatas de assistência de emergência e os trabalhos para que se possa olhar o futuro do Haiti com esperança¿, disse.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também anunciou um novo plano de cooperação, no qual não só perdoou a dívida de US$ 480 milhões que o Haiti tinha com a instituição, como se propôs a criar um ¿pacote de assistência financeira¿, com um fundo de US$ 364 milhões.

União Para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Jorge Ramalho, que lecionou por dois anos na Universidade Estadual do Haiti, a velocidade com que as doações estão sendo feitas e a grande mobilização internacional em termos de ajuda humanitária e de resgate representam o crescente sentimento de união e interdependência mundial, fruto de uma nova tendência política que surgiu com o fim da Segunda Guerra Mundial.

¿O Haiti é simbólico para esse novo momento mundial. Ele materializa o cerne da inovação da atual política externa, que promove uma ordem internacional menos injusta. Com a ideia de que há um espaço político no qual se é possível trabalhar para diminuir as desigualdades¿, explicou. Ramalho, entretanto, salienta que os jogos de interesse por trás das doações são inevitáveis. ¿Os líderes também estão olhando para seus respectivos eleitorados e para a opinião pública de uma maneira geral. Fora que a generosidade de um acaba forçando a dos demais¿, ponderou.

O Haiti é simbólico para esse novo momento mundial. Ele materializa o cerne da inovação da atual política externa, que promove uma ordem internacional menos injusta¿

Antônio Jorge Ramalho, professor de relações internacionais da UnB

O número R$ 10 bilhões É o valor necessário para reconstruir o Haiti, segundo estimativa de Leonel Fernández, presidente da República Dominicana

Memória Dinheiro de sobra em 2004

Em 2004, após um forte tsunami que devastou parte da costa do Oceano Índico e matou aproximadamente 232 mil pessoas em 11 países, a ajuda financeira internacional chegou à inédita quantia de US$ 12 bilhões. O dinheiro, na ocasião, superou a estimativa dos prejuízos gerados com a catástrofe natural. As doações excedentes viraram motivo de especulação internacional e da cobiça de países mais pobres, que quiseram ficar com os recursos. (MFS)

Lula cobra empenho de países ricos

Edson Luiz Flávia Foreque

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou maior empenho das nações ricas para ajudar a população do Haiti, devastado por um terremoto na semana passada. Lula reconheceu que vários países, além do Brasil ¿ que doou US$ 15 milhões ¿, já deram uma parcela de contribuição, mas a situação, segundo ele, requer mais dinheiro. ¿O momento, agora, é de colocar a mão no bolso e ajudar¿, afirmou, durante o programa semanal de rádio Café com o presidente.

Na reunião de coordenação política, realizada na manhã de ontem, Lula pediu agilidade de seus ministros na liberação dos recursos necessários ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, órgão encarregado de coordenar a ação dos brasileiros em Porto Príncipe. ¿Os países europeus estão ajudando e vão ajudar mais. Acho que as nações da América Latina vão ajudar e, sobretudo, os países mais ricos têm que colocar mais dinheiro¿, afirmou Lula, ressaltando que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a se reunir com seus dois antecessores, Bill Clinton e George W. Bush, para mobilizar recursos em prol do Haiti.

Ontem, Lula recebeu telefonema de Obama e eles conversaram por cerca de 15 minutos. O presidente norte-americano expressou seus sentimentos pelas perdas brasileiras e elogiou o desempenho do país diante da tragédia no Haiti. Obama ressaltou a necessidade de Brasil e Estados Unidos permanecerem unidos no auxílio à nação caribenha, já que os dois países têm a maior força de segurança naquele país, e sugeriu que, com o auxílio do Canadá, Brasil e EUA liderem a comunidade de doadores e interessados em oferecer ajuda aos haitianos.

Segundo o ministro Alexandre Padilha, de Relações Institucionais, que participou da reunião do GSI ontem, o objetivo é garantir a liberação o quanto antes de recursos solicitados pelo gabinete. ¿Nós tivemos que ampliar muito os deslocamentos aéreos, tanto os da FAB (Força Aérea Brasileira) como os de civis. Isso significa que os gastos aumentam¿, disse Padilha.

O ministro também elogiou a participação de empresas brasileiras no fornecimento de água ao Haiti. Segundo ele, sete caminhões-pipa têm levado água ao país atingido pelo terremoto por meio da República Dominicana. ¿A primeira preocupação foi garantir a entrada de água, mas, neste momento, a prioridade das equipes brasileiras é identificar se a qualidade está boa para consumo e se os reservatórios não foram danificados¿, explicou.

Nós tivemos que ampliar muito os deslocamentos aéreos, tanto os da FAB (Força Aérea Brasileira) como os de civis. Isso significa que os gastos aumentam¿ Alexandre Padilha, ministro de Relações Institucionais