Título: Para Israel, Venezuela e Bolívia fornecem urânio para o Irã
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Fonte: Valor Econômico, 26/05/2009, Internacional, p. A11

O governo de Israel acusa a Venezuela e a Bolívia, em documento vazado ontem, de fornecerem urânio ao Irã para o polêmico programa nuclear que o país islâmico vem desenvolvendo, em violação a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Os quatro países não comentaram o caso ontem.

"Há informações de que a Venezuela abastece o Irã com urânio para o seu programa nuclear", afirma um documento do Ministério das Relações Exteriores israelense, segundo a agência de notícias Associated Press, que disse ter tido acesso ao texto. "A Bolívia também fornece urânio ao Irã", continua o relatório.

O documento, de três páginas, trata da aproximação recente do Irã com a América Latina. Além da acusação de fornecimento de urânio, há ainda menção a suposta penetração da milícia islâmica Hizbollah na região. Israel diz que o grupo, que é apoiado pelo Irã, está implantando células em países latino-americanos. Diz ainda que a Venezuela emitiu documentos a iranianos que vivem no país, dando a eles a possibilidade de viajar sem restrições na América do Sul.

O governo de Israel não confirmou, mas não negou, a autenticidade do documento. O governo do Irã não se pronunciou a respeito.

Os presidentes Hugo Chávez e Evo Morales não comentaram a acusação. Os dois governos vêm se aproximando do Irã nos últimos anos por meio de acordos comerciais e projetos de investimentos. No ano passado, o Irã abriu uma embaixada na Bolívia. Mas essa é a primeira vez que os dois países são envolvidos no programa nuclear iraniano, visto por Israel como uma ameaça.

O documento teria sido elaborado antes da viagem do vice-ministro das Relações Exteriores israelense, Danny Ayalon, à América Latina. Ele participa da Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) na próxima semana, em Honduras. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, também tem viagem marcada à região.

Os governos da Venezuela e da Bolívia vêm mantendo uma posição de crítica aos EUA e também a Israel. Como protesto à invasão israelense em Gaza, no fim de 2008 e início deste ano, a Venezuela expulsou o embaixador israelense de Caracas. Israel retaliou expulsando o representante venezuelano. A Bolívia cortou laços com Israel também como reação à ofensiva.

O relatório israelense não diz qual é a origem do urânio que estaria sendo enviado ao Irã. A Bolívia tem reservas do mineral. As reservas - não exploradas - da Venezuela têm uma quantidade estimada de 50 mil toneladas, segundo análise publicada em dezembro pela organização americana sem fins lucrativos Carnegie Endowment for International Peace. A entidade lembra, no entanto, que a recente colaboração com o Irã na área de minerais estratégicos alimentou especulações de que a Venezuela poderia passar a produzir urânio para o Irã.

No documento, Israel diz que, ao ajudarem o Irã com o envio de urânio, os governos da Venezuela e da Bolívia estão violando sanções adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU a esse tipo de colaboração. Caso a acusação seja comprovada, Venezuela e Bolívia poderão ser alvo de uma moção de censura do Conselho de Segurança.

Israel vê o Irã como ameaça por causa do programa nuclear, da construção de mísseis de longo alcance e das referências do presidente Mahmoud Ahmadinejad à destruição de Israel. Teerã diz que seu programa nuclear tem como único objetivo a geração de energia elétrica, mas não autoriza inspeções da ONU. (Colaborou Marcos de Moura e Souza, do Valor)