Título: Setor de intermediários ainda faz ajustes
Autor: Bouças , Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 01/06/2009, Brasil, p. A2

Na semana passada, a Vale anunciou que vai demitir entre 250 e 300 funcionários a partir de junho, para adaptar sua folha à produção atual. A Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, também anunciou a concessão de licença remunerada com redução de salário por quatro meses aos seus 2 mil funcionários, parte iniciando a licença em julho e com possibilidade de renovação por mais quatro meses. E a Usiminas concluiu o plano de demissões voluntárias (que teve adesão de 516 funcionários) e anunciou o corte de 810 postos de trabalho até o fim do mês, subindo para aproximadamente 1,5 mil demissões desde o agravamento da crise internacional, em setembro. Tais decisões não são uma simples coincidência.

Os ajustes na folha de pagamentos feitos pelas empresas de mineração e siderurgia são uma resposta à deterioração na produtividade e no custo do trabalho que ocorre desde o quarto trimestre de 2008. As condições de crédito ainda restritas, as exportações dificultadas pelo cenário externo recessivo e a falta de perspectiva de recuperação no curto prazo também contribui para esses ajustes. Levantamento feito pela LCA Consultores mostra que os grupos de bens intermediários e bens de capital registraram no primeiro trimestre do ano resultados piores do que aqueles apresentados no último trimestre de 2008 e trabalham com perspectiva de queda também no segundo trimestre - indo na tendência contrária de setores de bens de consumo, que apontam uma recuperação mais rápida.

Em abril, o nível de utilização da capacidade desses grupos ainda registrou resultados ruins na avaliação de economistas. O setor de bens intermediários operava com 78,3% da capacidade instalada, 8,3 pontos percentuais abaixo da média histórica e 7,7 pontos percentuais abaixo do nível alcançado em setembro de 2008 (pico da produção no Brasil e antes do agravamento da crise internacional). O grupo de bens de capital operava com 73,9% da capacidade, 7,4 pontos abaixo da média histórica e 15,3 pontos abaixo do verificado em setembro. Os maiores desvios em relação à média ocorreram nos setores de metalurgia (22,3%), mecânica (8,9%), material elétrico e de comunicação (7,9%) e produtos minerais não metálicos (5,9%).

"Os grupos de bens intermediários e bens de capital precisam operar com mais de 90% da capacidade para serem competitivos. E para que voltem a crescer, eles dependem essencialmente da retomada dos investimentos e da recuperação da economia externa", avalia o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges. De acordo com o economista, a retomada dos investimentos dependerá da melhora na oferta de crédito e da confiança do empresariado e dos consumidores. Para os segmentos ligados à exportação, como mineração e siderurgia, a recuperação também depende da economia mundial.

No primeiro trimestre, esses grupos já haviam registrado piora no custo unitário do trabalho e na produtividade, em comparação com o desempenho do quarto trimestre, o que leva economistas a apostarem em uma nova fase de ajustes no nível de emprego nessas áreas. A indústria extrativa, onde se insere a mineração, registrou queda de 16,8% em produtividade e aumento de 49,1% no custo do trabalho. Dos 17 setores da indústria de transformação, nove apresentaram queda maior na produtividade no primeiro trimestre em comparação com o último trimestre de 2008 - metalurgia básica (29,4%), máquinas e aparelhos elétricos e eletrônicos (28,9%), máquinas e equipamentos (22,9%), produtos de metal (17,2%), madeira (12,8%), fabricação de meios de transporte (11,8%), calçados e couro (10,1%), minerais não metálicos (8,7%) e outros produtos (11,6%).

À exceção dos setores de material de transporte (17,1%) e minerais não metálicos (6,3%), que realizaram um forte movimento de demissões entre novembro e março (fechamento de 5,8 mil e 29,7 mil postos formais, respectivamente), todos os setores citados anteriormente apresentaram aumento mais expressivo no custo unitário do trabalho no primeiro trimestre. Os incrementos mais expressivos ocorreram em metalurgia básica (43,4%), máquinas e aparelhos elétricos e eletrônicos (35,6%), máquinas e equipamentos (34,4%), produtos de metal (32,7%). Também houve queda em madeira (24,6%), calçados e couro (17,1%) e outros produtos (29,1%).

"Se for eleger os setores onde haverá mais demissões, os setores com maior probabilidade são os de bens de capital e intermediários", diz Borges. Ele observa que sondagem realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontava os intermediários e bens de capital como os únicos com nível de estoque ainda indesejado.

Para o sócio da RC Consultores, Fábio Silveira, o setor de bens de capital deve demorar a se recuperar, fechando o ano com queda de 15% na produção. "O setor siderúrgico deve começar a apresentar um incremento de produção na margem [comparado ao primeiro trimestre com ajuste sazonal], mas isso não significa que não haverá demissões no setor. A chegada ao ponto ótimo de emprego e custo com folha na indústria ainda vai passar por cortes em bens de capital e bens intermediários, podendo haver ainda algum ajuste em bens intermediários e duráveis", afirma. Para ele, só impedirá um agravamento no quadro do emprego no setor de bens de capital a evolução dos investimentos do governo em obras de infra-estrutura e dos investimentos da Petrobras.

O professor de Economia da Unicamp, Fernando Sarti, faz avaliação semelhante e acrescenta um novo fator para deterioração do desempenho dos setores exportadores (siderurgia, metalurgia e celulose). "A recente valorização cambial não estava no papel. Talvez tenha havido uma superestimação da crise no Brasil, que acabou não se confirmando. A confiança dos investidores em relação à economia brasileira voltou a crescer e o real se apreciou, o que afeta os exportadores", avalia. Para ele, os setores exportadores tendem a manter um nível de emprego deprimido, podendo registrar saldos negativos, mas tais resultados serão "insuficientes para gerar um ciclo vicioso do desemprego, como ocorreu em outras crises."