Título: Bancos médios estendem prazos
Autor: Travaglini , Fernando
Fonte: Valor Econômico, 01/06/2009, Finanças, p. C1

Com a estabilidade da inadimplência, os grandes bancos começaram a ampliar prazos e reduzir mais fortemente os juros. Agora, com o fim da crise de liquidez e o do resgate antecipado do novo depósito a prazo, as instituições de médio porte também começam a preparar medidas para ampliar a competitividade no mercado de crédito.

Na quinta-feira, o Conselho Monetário Nacional (CMN) anunciou que os Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE), que contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), não poderão ter resgate antecipado. Isso deve permitir uma melhor gestão da carteira dos bancos e, consequentemente, um alongamento dos prazos de empréstimos.

"Os bancos médios que operam veículos já estão fazendo operações em 72 meses. Os médios foram os primeiros a elevar os prazos. No consignado também já há ampliação das linhas, desde que os convênios permitam", afirma Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Banco (ABBC).

Um bom exemplo de redefinição de estratégia é o Banco Mercantil do Brasil. Uelques Almeida, gerente de táticas comerciais do banco afirma que desde o inicio de abril foram elevados os prazos de 36 meses para até 48 meses. O executivo acredita que nos próximos meses, novas revisões poderão ser feitas, voltando aos 52 meses operados antes da crise.

"Fazemos monitoramento diário. No início do ano verificamos uma perda no poder aquisitivo. Mas entre abril e maio já houve uma retomada. Também nos adequamos à demanda". O banco só ainda não regressou com o mesmo entusiasmo no mercado de veículos, completou Almeida.

Esse movimento de flexibilização no crédito para atrair de volta a clientela começou gradualmente em março e se consolidou com os primeiros sinais de desaceleração da alta da inadimplência e da melhora do cenário econômico. De acordo com dados do Banco Central, o prazo médio das operações para pessoas físicas apresentou recuo desde o agravamento da crise. Em março voltou a subir. E em abril chegou a 491 dias, em média, bem próximo da máxima atingida em outubro do ano passado.

O pontapé inicial foi dado pelos grandes bancos. O primeiro foi o Itaú Unibanco, que voltou a operar financiamento de veículos em 72 meses. Em seguida, foi a vez do Santander adotar o limite de seis anos para veículos e também para o consignado. Na semana passada, o Banco do Brasil ampliou o limite das linhas para pessoas físicas enquanto o Bradesco estendeu o crédito imobiliário para 30 anos e o financiamento de veículos para 80 meses, com queda dos juros.

Agora, os bancos médios se preparam para seguir a tendência. No caso das instituições de menor porte, o que permite a retomada do crédito é a volta das captações por meio de depósitos a prazo. De acordo com dados da Cetip, já foram lançados mais de R$ 6,5 bilhões em DPGE - o estoque total de CDB supera os R$ 755 bilhões.

A maior parte das emissões do novo DPGE, 42%, está concentrada na faixa de até um ano de vencimento. Mas uma parte relevante, 23%, vence em até dois anos e mais de um terço do total (35%) tem prazo acima de três anos, compatível com a carteira desses bancos.

Segundo Ricardo Gelbaum, diretor do BMG, num primeiro momento o banco não fez muitas captações com o DPGE, que completa dois meses de vida, por conta dos prazos, que estavam muito curtos. Agora com a decisão do CMN, o produto passa a ser bastante interessante. "Nossa carteira média gira em torno de dois a dois anos e meio e além dos depósitos a prazo podemos balancear isso com cessões de crédito", disse, lembrando que começam a surgir sinais de abertura também no mercado externo.

Os papéis oferecem retornos que variam de acordo com os prazos de vencimento e o apetite dos bancos. Oscilam entre 108% e 130% do CDI - com uma média em torno de 115%. Em cima disso, o banco tem de pagar um percentual ao FGC, por conta da garantia. Oliva, da ABBC, avalia que com a queda da Selic, esse percentual poderia ser reduzido. "O custo teria de ser entre 5% e 7%, mas hoje está em 10%", disse.

Otávio Vieira, diretor de investimentos do Safidé Gestão de Patrimônio, explica que este mercado está com uma demanda interessante por conta das taxas que ainda estão atrativas. "Os investidores têm a sensação de que mercado brasileiro é sólido. Mesmo no auge da crise não houve nenhum problema de solvência".

Prova da alta demanda é que o HSBC montou um fundo apenas para comprar esses títulos. Já foram captados R$ 140 milhões e há outro fundo aberto para captar mais R$ 90 milhões. "A garantia não é Tesouro, mas é risco próximo de soberano. É uma boa oportunidade porque paga taxas interessantes", disse Renato Ramos, diretor de renda fixa do HSBC Global Asset Management.

A expectativa é que as emissões possam superar os R$ 30 bilhões nos próximos meses com a entrada dos grandes investidores institucionais. E os fundos de pensão já começaram a comprar papéis, afirma Fernando Lovisotto, diretor da consultoria RiskOffice.

Segundo ele, as taxas dos tradicionais Certificados de Depósitos Bancários (CDB) foram reduzidas após período de alta em 2008 e o DPGE apareceu como uma boa oportunidade. As fundações têm 23% da carteira de renda fixa alocada em crédito privado e, desse total, mais da metade (53%) é depósito a prazo, cerca de R$ 30 bilhões.