Título: Estrangeiro na Bovespa é a grande incógnita de junho
Autor: Monteiro , Luciana
Fonte: Valor Econômico, 01/06/2009, Investimeto, p. D2
Depois da enxurrada de dinheiro externo que ingressou na bolsa brasileira em maio, a grande incógnita para junho é saber se esse intenso fluxo de recursos irá continuar ou se agora serão os fundamentos econômicos que ditarão o comportamento do mercado acionário.
O saldo líquido de investidores estrangeiros na bolsa em maio somava R$ 5,059 bilhões até o dia 26, elevando para R$ 10,176 bilhões o total no ano. Isso fez o principal referencial da bolsa brasileira, o Índice Bovespa, encerrar o mês com valorização de 12,49%, acumulando 41,67% no ano. O indicador chegou, inclusive, a superar a marca dos 53 mil pontos, nível registrado em setembro do ano passado, logo após a quebra do banco americano Lehman Brothers no dia 15.
A boa notícia para junho é que alguns levantamentos mostram que os investidores estrangeiros ainda têm muito dinheiro em caixa e o Brasil é um dos destinos preferidos para receber esses recursos. Com relação às empresas brasileiras, aparentemente o susto com a forte paralisação no primeiro trimestre passou e as companhias começam a ver que existe vida pós-crise, avalia André Caminada, sócio da Victoire Brasil Investimentos. Para o segundo trimestre, é esperada uma queda nos estoques e, portanto, sinais mais positivos da economia, avalia.
A percepção do investidor estrangeiro é de que o Brasil está melhor que a média dos outros países nesta crise, afirma Caminada. "E quando esses investidores entram, eles aplicam nas ações do Ibovespa, portanto, o indicador pode ter novas valorizações, talvez não na mesma intensidade vista no mês de maio", avalia o executivo. Na visão dele, a bolsa não está cara, mas já não pode ser considerada uma pechincha.
A bolsa brasileira está sendo movida por fatores ligados ao fluxo de recursos internacionais e aos fundamentos do país, avalia Sandra Petrovsky, superintendente de investimentos da Votorantim Asset Management (VAM). "O país tem uma boa relação dívida/PIB, tem reservas elevadas, boa perspectiva de recuperação e isso vem atraindo os recursos externos", explica. O mesmo pode ser visto em outros países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), que estão recebendo bastante investimento, com exceção da Rússia, onde os fundamentos não estão tão bons. "O pessoal já diz que o Bric agora é Bic, porque a Rússia está mal."
O Brasil, porém, já está com múltiplos elevados, diz Sandra, citando a relação Preço/Lucro (P/L) corrente das ações, que hoje está em 13 vezes. A média história é de 12 vezes, mas no pico, no ano passado, chegou a 15. Quanto mais alto esse número, mais caro está o mercado. Para se ter uma ideia, a China está com um P/L de 30 vezes, próximo do pico histórico do mercado. "Mas teremos de trabalhar com esses múltiplos altos por causa do fluxo", explica Sandra. "Depois, o fundamento deve melhorar e isso ajustará o mercado." O fundamento no caso seria o lucro das empresas, que cresceria e reduziria o resultado da relação P/L.
Sandra trabalha com uma projeção para o Ibovespa de 56.400 pontos no fim deste ano, um número bastante conservador, definido no fim do ano passado e que não leva em conta a melhora internacional vista no mês passado. "Mas qualquer mudança na taxa de crescimento brasileira deste ano ou no risco-Brasil pode mudar esse alvo para 63 mil", diz.
A recuperação da bolsa se mostra surpreendente, diz Pedro Lérias, gestor de carteiras da Verax Serviços Financeiros. "Lá fora, as taxas de juros estão baixas, o que leva o investidor estrangeiro a buscar mais risco", avalia. Para ele, apesar do movimento de valorização da bolsa, há oportunidades em ações para quem tem visão de longo prazo, mas que não são óbvias. "Há dúvidas, entretanto, sob o ponto de vista macroeconômico, com relação aos Estados Unidos e ao crescimento chinês, e isso pode ser um detrator para a renda variável no curto prazo", avalia. Pesa a favor o fato de que boa parte dos recursos que ingressaram na bolsa foram destinados para papéis de menor liquidez. Isso mostra uma visão de médio a longo prazo dos estrangeiros, analisa.
Os fundos compostos somente por ações da Petrobras foram beneficiados pelo apetite dos estrangeiros. Em maio, até o dia 26, as carteiras acumulam valorização de 14,41% e, no ano, têm alta de 52,80%. Entre os dias 27 e 29, as ações ordinárias (ON, com direito a voto) subiram 1,91%. Já as carteiras formadas apenas por papéis da Vale registram ganho de 7,56% no mês e de 41,34% no ano. Nos três últimos pregões do ano, as ON apresentaram queda de 2,21%.
Com relação aos juros, as atenções se voltam para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada entre os dias 9 e 10. A queda do dólar ajuda a manter a inflação para baixo e isso favorece o Banco Central a reduzir os juros, avalia Caminada, da Victoire. "O Brasil é um país classificado como grau de investimento, não tem grandes problemas estruturais e conta com alto nível de reservas", diz. "Portanto, não há por que o país manter uma das maiores taxas de juros num momento em que todo mundo quer vir para cá."
A expectativa do mercado é de mais uma queda da taxa Selic na próxima reunião do Copom, mas isso já está nos preços dos papéis prefixados no mercado futuro. Segundo Lérias, da Verax, não há mais prêmio nos títulos com vencimentos mais curtos. As oportunidades estão nos papéis longos, mas que também são mais arriscados, alerta.
Com relação ao dólar, uma importante barreira também foi batida em maio: a divisa foi negociada abaixo dos R$ 2,00. Na sexta-feira, o dólar comercial encerrou o dia valendo R$ 1,97, valor que não era registrado desde 1º de outubro de 2008. No mês, a moeda acumula desvalorização de 9,67% - a maior queda mensal desde abril de 2003, quando a moeda recuou 13,23%. No acumulado do ano, a queda é de 15,60%. (Colaborou Angelo Pavini)