Título: Melhora da balança dá mais fôlego às contas externas
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Fonte: Valor Econômico, 03/06/2009, Brasil, p. A4
O Brasil caminha para fechar o ano com um déficit em conta corrente bem mais modesto do que em 2008. Com a recuperação das exportações de commodities e o forte tombo das importações, houve mudanças significativas nas estimativas para a balança comercial. Já há quem projete um número próximo de US$ 30 bilhões, como os economistas do Bradesco. Um ponto importante é que várias dessas previsões mais otimistas já contemplam um dólar próximo ou abaixo de R$ 2 -o Bradesco, por exemplo, trabalha com a moeda americana em R$ 1,90 no fim deste ano. Além da melhora na balança, os resultados das contas externas de janeiro a abril confirmam a queda significativa da remessa de lucros e dividendos, em decorrência da atividade econômica mais fraca e do câmbio mais desvalorizado do que o que vigorou em grande parte de 2008.
Nesse quadro, o país deve encerrar 2009 com um déficit na conta corrente - medida das transações de bens, serviços e e rendas com o exterior - abaixo dos US$ 28,3 bilhões no ano passado, o equivalente a 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB). O Bradesco aposta em US$ 4,8 bilhões e a Quest Investimentos, em US$ 12 bilhões. Nos dois casos, um resultado inferior a 1% do PIB. O consenso dos analistas ouvidos pelo Banco Central aponta para um déficit de US$ 17,6 bilhões.
O economista Paulo Miguel, da Quest, começou 2009 com uma previsão de um saldo comercial de US$ 10 bilhões. Transcorridos cinco meses do ano, o seu número pulou para US$ 25 bilhões. Dois motivos principais explicam as mudanças nas projeções, segundo Miguel: a melhora nas exportações de produtos básicos a partir de março e a queda significativa no déficit da conta de lubrificantes e combustíveis.
Em abril, o volume de vendas externas de básicos ficou 36,5% acima do mesmo mês de 2008, segundo a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). No primeiro quadrimestre, as exportações desses produtos cresceram 17,9%, enquanto as vendas totais tiveram perda de 10,6%, puxadas pelo tombo de 28,2% das de manufaturados.
"A China voltou a comprar commodities com força, num movimento de recomposição de seus estoques", diz Miguel, alertando, contudo, que ainda é difícil saber em que ritmo as exportações de produtos básicos vão se acomodar daqui para a frente. Em maio, por exemplo, o valor das exportações de básicos ficou 35,9% abaixo do de maio de 2008 - a informação sobre volume exportado ainda não foi divulgada pela Funcex. Uma questão é que as altas de março e abril foram influenciadas pela base fraca de comparação, já que a greve da Receita Federal de 2008 distorceu as estatísticas referentes a esses meses no ano passado.
Miguel também destaca a redução do déficit da conta de combustíveis e lubrificantes, em grande parte devido às cotações mais baixas do petróleo, que reduz os gastos com importações. "No acumulado de janeiro a abril de 2009, houve déficit de US$ 4,416 bilhões, bem abaixo dos US$ 8 bilhões no mesmo período de 2008." No ano passado, o rombo foi de US$ 14,933 bilhões. "Não temos projeção para o saldo dessa conta em 2009, mas creio que será cerca de metade do de 2008 ou menos."
Os economistas do Bradesco têm uma estimativa de US$ 29,4 bilhões para o saldo comercial em 2009, bem superior aos US$ 10,7 bilhões previstos no começo do ano. Eles lembram que haverá um forte tombo das importações, dada a forte desaceleração da atividade econômica. Segundo o Bradesco, as compras externas devem recuar 31,5% em relação a 2008, totalizando US$ 118,652 bilhões. É um tombo superior ao esperado para as exportações neste ano, de 25,2%, para US$ 148,034 bilhões.
"Além da perspectiva de queda forte das importações, houve uma recalibragem do volume exportado de algumas commodities, como soja, açúcar e celulose", dizem os economista do banco, destacando a ampliação da participação da China na pauta de exportações. De janeiro a abril, as quantidades vendidas no exterior de soja aumentaram 46% em relação ao mesmo período de 2008, enquanto as de açúcar tiveram alta de 39%.
Com uma balança comercial de quase US$ 30 bilhões, o Brasil pode fechar o ano com um déficit em conta corrente de apenas US$ 4,8 bilhões, o equivalente a apenas 0,34% do PIB, estima o Bradesco. Além das perspectivas mais robustas para o saldo comercial, o banco e outros analistas apostam num redução significativa das remessas de lucros e dividendos. Em 2008, elas totalizaram US$ 33,9 bilhões, um número expressivo, resultado dos ganhos significativos das empresas, num cenário de forte crescimento, e do câmbio valorizado - com a moeda americana na casa de R$ 1,60 a R$ 1,70, os reais compravam mais dólares para serem enviados ao exterior.
Neste ano, o quadro mudou. O estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, estima que as remessas de lucros e dividendos devem ficar em US$ 21,1 bilhões neste ano. O desaquecimento da atividade econômica deve encolher os lucros das companhias, diz ele, que aposta numa contração do PIB de 1,5% em 2009. Também ajuda a perspectiva de que, em média, o câmbio ficará mais desvalorizado do que em 2008, mesmo com a recente apreciação do real.
Para Lintz, o déficit em conta corrente deve ficar em US$ 16,9 bilhões, o equivalente a 1,2% do PIB. Ainda que o número seja mais alto que o projetado pelo Bradesco e pela Quest, não há motivo para preocupação, diz ele, que considera o valor facilmente financiável. Lintz espera que os investimentos estrangeiros diretos totalizem US$ 33,7 bilhões neste ano, abaixo dos US$ 45,1 bilhões de 2008, mas ainda assim um número robusto.
Lintz e Miguel veem o menor déficit em conta corrente como um fator estrutural por trás da recente valorização do câmbio. Para o primeiro, isso dá mais confiança para o investidor estrangeiro interessado em apostar no real, porque mostrar que o país tem contas externas sólidas. Com a redução da aversão global ao risco, a moeda brasileira aparece como um ativo interessante, que atrai recursos para renda fixa e ações. Para completar, as perspectivas de crescimento mais promissoras para os próximos anos tornam o Brasil um país atraente para as empresas estrangeiras, o que explica o bom fluxo de investimentos diretos.
Nesse novo cenário, o Bradesco projeta um dólar a R$ 1,90 no fim do ano. Lintz tem como estimativa oficial uma moeda americana a R$ 2 em dezembro, mas diz que esse número está claramente sujeito à revisão, uma vez que as cotações já caíram abaixo desse valor. Para Miguel, o dólar pode buscar o nível de R$ 1,80 no curto prazo, mas considera o patamar de R$ 2 razoável para o fim do ano, uma vez que a situação da economia global ainda é complicada.