Título: Especialistas não descartam falha no avião
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 03/06/2009, Brasil, p. A6

Em meio aos inúmeros mistérios que envolvem o acidente com o Airbus A330 da Air France, especialistas tentam agrupar os poucos fatos conhecidos para começar a desenhar uma explicação. "Ainda não dá para falar das causas, mas é possível esclarecer a lógica por trás da investigação", afirma Moacyr Duarte, pesquisador especialista em análise de acidentes e controle de emergência do Centro de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo ele, fenômenos meteorológicos por si não seriam o bastante para abater uma aeronave como o A330, equipada com diversos recursos que a protegem e com radares capazes de alertar a tripulação sobre condições climáticas muito severas. Portanto, diz Duarte, é preciso que tenha havido também alguma falha na aeronave para explicar o acidente. "Algo ocorreu no avião que não é normal, isso é certo", afirma, falando do acidente com a aeronave, na qual estavam 228 pessoas.

O coordenador do curso de engenharia aeronáutica da USP São Carlos, Fernando Martins Catalano, também reforça a afirmação de que fenômenos como tempestade e raios não podem ser o fator determinante de um acidente aéreo. A hipótese de a aeronave ter sido atingida por raios é considerada, mas apenas como uma parte do evento. Os aviões são protegidos contra raios e preparados para enfrentar condições climáticas adversas. "Acidentes aeronáuticos não acontecem por conta de uma razão só. O que pode ter ocorrido é uma forte turbulência combinada por raios e outros fatores", diz ele.

Carlos Camacho, diretor de segurança do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), acredita que o piloto pode ter sido surpreendido por uma tempestade de raios muito forte, com consequências que deixaram a tripulação impossibilitada de agir. "Não se sabe o que o piloto encontrou em seu percurso. Caso tenha sido uma tormenta com raios, a fiação da aeronave pode ter sido um ponto frágil", diz.

Uma eventual falha na aeronave ainda não é conhecida, mas já é possível imaginar com certa dose de certeza as suas características. "Foi uma falha catastrófica, vinda com efeito "míssil" e incapacitante", afirma Duarte. O "efeito míssil" caracterizaria um espaço de tempo curtíssimo entre o surgimento da falha e a manifestação de suas consequências no avião.

Essas consequências, por sua vez, teriam incapacitado a tripulação de agir, o que explicaria por que não houve contato dos pilotos sobre os problemas enfrentados. A interpretação é compartilhada por Catalano, que destaca que a falta de comunicação da tripulação indica que o evento foi muito rápido.

Apenas mensagens automáticas foram enviadas pela aeronave ao controle da companhia Air France em Paris após o último contato com o controle de voo no Brasil informando sobre problemas elétricos, de despressurização e de redução da potência dos motores.

Um exemplo de causa incapacitante citado por Duarte é o que ocorreu no acidente entre o Boeing 737 da Gol e o Legacy, em setembro de 2007. Ao ser atingido na asa pelo Legacy, o Boeing imediatamente iniciou uma queda livre em espiral, o que inviabilizou qualquer atitude da tripulação.

Para Camacho, do SNA, uma outra hipótese para que a tripulação não tenha conseguido entrar em contato é a ocorrência de uma pane total no sistema elétrico do avião. "Estamos só especulando, o sistema elétrico pode ter sido comprometido. Essas aeronaves são equipadas com sistemas que permitem comunicação mesmo em caso de acidentes, mas ela não foi feita", diz ele.

Aos poucos, os detalhes começam a fazer toda a diferença na investigação. O fato de os destroços do A330 terem sido encontrados num área de cinco quilômetros do oceano, por exemplo, pode ser um indício de que o avião não explodiu em altitude elevada, diz Duarte. "O raio de localização dos destroços seria muito maior se uma explosão dessa forma tivesse ocorrido."

Nesse sentido, a recuperação dos destroços do A330 deverá ser fundamental para fornecer mais pistas. Para Duarte, também fará muita diferença saber se os sinais enviados pela aeronave - de que ela sofreu tanto despressurização quanto panes elétricas - foram registrados na ordem correta dos eventos. Dependendo da sequência de acontecimentos, as conclusões sobre o que realmente levou à tragédia serão distintas.

As dificuldades, porém, são enormes, visto que não se sabe a quantidade de destroços recuperáveis nem a chance de que a caixa-preta seja encontrada, até pela profundidade do oceano na região. "O aspecto mais lamentável do acidente é que talvez não seja possível aprendermos com ele", afirma Duarte.

Os obstáculos para compreender o que ocorreu com o A330 aumentam quando são examinadas as estatísticas de acidentes aéreos. Elas mostram que a possibilidade de um avião em velocidade de cruzeiro - ou seja, já estável, com altura e velocidade ótimas - sofrer um acidente são mínimas. Apenas 4% dos acidentes acontecem durante esse período do voo, segundo Catalano. "É uma posição em que a aeronave enfrenta pouca instabilidade", diz. O mais comum é acidentes ocorrerem por conta de complicações no pouso ou decolagem.

Os especialistas ressaltam que a área atravessada pela aeronave não é considerada perigosa, apesar de ser uma zona tipicamente com nuvens. "Temos voos diários pela região, que é conhecida por sua turbulência, mas os aviões são capazes de enfrentar, por isso acredito que existe um conjunto de causas do acidente, alguma falha estrutural", diz o coordenador da USP São Carlos.

Outra dúvida é que não se sabe se as mensagens sobre falha elétrica foram enviadas antes ou depois do acidente, ou seja, se elas foram causa ou consequência do problema.