Título: ONGs fazem proposta para clima que reduz emissões de emergentes
Autor: Chiaretti , Daniela
Fonte: Valor Econômico, 09/06/2009, Internacional, p. A11
Uma proposta de acordo climático lançada ontem, em Bonn, na Alemanha, prevê cortes drásticas de emissões para os países ricos, cortes também para países em desenvolvimento e recursos para que eles consigam se adaptar às mudanças provocadas pelo aquecimento global e reduções. Todos têm que entrar na dança, segundo o documento de 160 páginas que contempla propostas de vários países, mas não é assinado por nenhum deles - os autores são uma inédita coalizão de organizações não-governamentais com estudiosos do assunto e alguns cientistas.
Intitulado Tratado Climático de Copenhague, o texto propõe que as emissões de gases-estufa dos países em desenvolvimento cresçam 84% em 2020, em relação aos níveis de 1990. Mas, depois disso, até 2050, o grupo terá de cortar em 51% as emissões. Isto só poderá ser obtido com o apoio financeiro e tecnológico das nações ricas. "Baseamo-nos na ciência e em princípios de equidade", diz Martin Kaiser, o coordenador da política de clima do Greenpeace, uma das ONGs que assina o documento.
A projeção é que em 2050 as emissões dos países em desenvolvimento se equiparem às dos industrializados, ressalta o cientista australiano Bill Hare. O cálculo leva em conta as emissões per capita. Os países ricos teriam um compromisso internacional; os mais pobres, objetivos a cumprir.
As ONGs trabalharam com a ideia de que as emissões anuais de carbono emitidas por todas as fontes que produzem gases-estufa no mundo (queima de combustíveis fósseis, desmatamento, agricultura etc) não poderão superar, em 2020, 36,1 gigatoneladas de CO2 as dos outros gases que aumentam a temperatura da Terra. Isto é basicamente o mesmo volume de 1990. O corte mais drástico virá depois, em 2050. Nesse ano, as emissões globais não poderiam superar as 7,2 gigatoneladas - uma redução de 80% em relação aos níveis de 1990 - para que o aumento da temperatura não ultrapasse os 2°C no fim do século. "O nosso é um trabalho em andamento", diz o documento, em sua versão 1.0. "Quisemos encorajar e provocar os países a refletir sobre o nível de ambição e detalhe que precisa ser acordado em Copenhague", prossegue, lembrando que a "janela de oportunidade" para enfrentar a mudança do clima "está se fechando".
"Nossa ideia foi integrar tudo o que está sendo discutido", diz Karen Suassuna, do WWF-Brasil e envolvida com a proposta desde o início. "Juntamos tudo o que os governos estão discutindo aos pedaços e mostramos que é possível fazer um acordo climático bom e justo". Ela avalia que o Brasil poderia ingressar num acordo do gênero sem muitos traumas. O Plano Nacional de Mudança Climática brasileiro, lançado no fim de 2008, prevê redução no desmatamento e admite corte nas emissões.
Pela proposta das ONGs, uma nova instituição - a Copenhaguen Climate Facility - gerenciaria os cortes de emissões, os mecanismos de proteção às florestas e a adaptação dos países mais vulneráveis. Nas peças que compõem o acordo das ONGs há tanto emendas ao Protocolo de Kyoto como a criação de um novo Protocolo de Copenhague. Os países teriam metas de redução por mais 5 anos (de 2013 a 2017) e assim sucessivamente. Nesta primeira fase, as nações industrializadas cortariam as emissões em 23%; outra redução, de 40%, aconteceria em 2020. Em 2050, os ricos viveriam em economias de baixo carbono - os cortes seriam de 95%. Eles bancariam os US$ 160 bilhões anuais necessários para que os outros consigam se adaptar, proteger as florestas e produzir com tecnologia limpa.
A proposta será distribuída aos negociadores dos 192 países e pretende dar impulso à negociação que está em curso. O encontro de Bonn é o segundo de uma série de eventos preparatórios à cúpula de Copenhague