Título: Investidor olha mais rentabilidade do que risco
Autor: Monteiro , Luciana
Fonte: Valor Econômico, 10/06/2009, EU & Investimentos, p. D10

Mais do que se preocupar com o risco de perder dinheiro na hora de escolher uma aplicação financeira, os investidores estão interessados mesmo é na rentabilidade. É o que revela uma pesquisa encomendada pela Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) ao Ibope Inteligência, cujo objetivo era avaliar a qualidade do atendimento dado pelos gerentes.

O estudo mostra que, entre os clientes do segmento de varejo, 32% deles olham primeiro o retorno da aplicação antes de investir. O risco de perder dinheiro ficou apenas em segundo lugar, com 25%. Em contrapartida, a taxa de administração aparece apenas com 1% entre as razões para a escolha de uma aplicação.

A rentabilidade aparece como uma preocupação maior ante a segurança da aplicação justamente num momento em que se tornam conhecidos do mercado golpes e pirâmides financeiras que prometem altos retornos, mas acabam por deixar o investidor a ver navios. Além disso, os investidores demonstram dar pouca atenção à taxa de administração cobrada pelo fundo bem na hora em que a queda dos juros aumenta o impacto dessa cobrança sobre os ganhos das carteiras mais conservadoras.

Para elaborar a pesquisa, foram ouvidos 1.050 clientes pessoas físicas e 600 profissionais que atuam na venda de diferentes tipos de ativos financeiros. A pesquisa foi realizada entre o início de dezembro de 2008 e meados de janeiro deste ano nas cidades de São Paulo, Porto Alegre e Recife. A intenção era observar o comportamento do investidor em diferentes regiões do país e as entrevistas foram feitas por telefone. No caso dos clientes, o público ouvido tinha de 35 a 60 anos e já fazia algum tipo de investimento. Os investidores foram divididos em dois grupos, varejo e "premium". No primeiro segmento, participaram do estudo aqueles com renda mínima de R$ 1,5 mil. No segundo ficou o investidor de renda mais alta.

O levantamento mostra que a agência bancária ainda é a principal fonte de informações para o cliente interessado em fazer algum tipo de investimento. No segmento de varejo, por exemplo, 61% dos clientes buscam tirar suas dúvidas com o gerente. Entre os clientes "premium", as agências aparecem com 53%, seguido pelos meios de comunicação e pelos sites dos bancos, com 34% cada um deles.

A boa e velha caderneta de poupança ainda é o investimento preferido do varejo - 60% dos entrevistados do segmento aplicam em caderneta. Já entre os clientes com renda mais alta, os fundos de renda fixa e DI são os mais procurados, com 51%. A pesquisa revela ainda que os investidores de varejo que aplicam em ações preferem fazê-lo de forma direta (19%) ante fundos de ações (18%). Os aplicadores que investem em ações e estão no segmento "premium", por sua vez, priorizam fundos de ações (32%) ante a compra direta de papéis (22%).

Considerando os dois tipos de clientes, a pesquisa do Ibope mostra ainda que mais de 60% dos entrevistados consideram o atendimento do gerente adequado às suas necessidades. É importante ressaltar, no entanto, que o levantamento não leva em conta a qualidade da informação prestada pelo gerente ao investidor e o conhecimento deste sobre o mercado. Isso quer dizer que um aplicador que não entenda nada ou muito pouco sobre um determinado investimento teria poucas condições de avaliar se o gerente não estava dando informações incorretas para ele.

Na avaliação de Silvia Cervellini, diretora de atendimento e planejamento do Ibope, entretanto, caso os investidores sofressem perdas por conta de orientações erradas, não haveria a alta percepção registrada pela pesquisa na qualidade do atendimento dos gerentes.

Para 85% dos clientes de varejo, o gerente demonstrou conhecimento ao ser consultado sobre um produto no qual o investidor ainda não aplicava. Já no segmento "premium", esse percentual ficou em 78%. A pesquisa mostra ainda que, no varejo, em 80% dos casos o gerente apresentou as opções de investimento para que o investidor decidisse qual a melhor aplicação, deixando claro os riscos presentes nas opções de investimento. Entre os clientes "premium", 85% disseram que o gerente apresentou as alternativas de aplicação, deixando ao investidor a decisão de onde investir, e 69% dos profissionais indicaram os riscos dos produtos.

Para Silvia, a pesquisa revela que as certificações da Anbid destinadas aos profissionais que atuam na venda de produtos de investimento estão cumprindo o objetivo de melhorar o atendimento aos investidores. A Anbid realiza até o momento dois tipos de certificação - a CPA-10 e a CPA-20. A primeira é destinada aos profissionais que atuam nas agências bancárias e têm contato com clientes na venda de aplicações financeiras. Já a segunda é voltada para profissionais que vendem investimentos para os qualificados - aqueles com mais de R$ 300 mil para aplicar. Nos dois casos, as certificações precisam ser renovadas a cada cinco anos.

Já entre os gerentes ouvidos pelo Ibope, 85% deles demonstraram satisfação com a certificação e 65% deles disseram ter a intenção de uma nova certificação. Segundo Ricardo Nardini, gerente-executivo da área de produtos e serviços da Anbid, duas novas certificações estão prontas para sair do forno. Uma delas é a que avaliará os gestores de recursos. O primeiro teste será realizado no próximo dia 21. Outra nova certificação é a de especialista de investimento, que englobará os profissionais que trabalham com o planejamento da carteira do investidor. A prova levará em conta não apenas os conhecimentos de aplicações financeiras, como fundos, como também sobre previdência privada. O primeiro teste será realizado em setembro.