Título: Possível prorrogação do corte do IPI cria incerteza para venda de carros
Autor: Manechini , Guilherme
Fonte: Valor Econômico, 12/06/2009, Empresas, p. B1
A possibilidade do governo federal prorrogar a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre os veículos deve ter um efeito duplo sobre o setor. Ao mesmo tempo que sinaliza que as montadoras terão condições de manter produção e empregos por um período maior, ameaça esfriar as vendas este mês, que estavam acima das expectativas. O crescimento no número de emplacamentos de automóveis e comerciais leves, nos nove primeiros dias de junho, indica que este poderá ser o melhor mês do ano e até bater o recorde do setor, registrado em julho do ano passado.
Até terça-feira, foram emplacados 77,8 mil automóveis e comerciais leves no país, alta de 8,2% sobre maio. Para igualar o mês de março, o melhor do ano até agora, o crescimento em junho tem de ser ao menos de 10,1% sobre maio. Se chegar a 15%, como estimavam alguns concessionários antes das notícias da possível prorrogação do benefício fiscal, o recorde histórico apurado em julho do ano passado poderá ser atingido.
Como a primeira semana, segundo representantes da indústria automobilística, é tradicionalmente mais fraca do que o restante do mês, a previsão era de que a partir de segunda-feira as vendas acelerassem ainda mais. O único fator no cenário do setor que deveria impactar a média diária de emplacamentos era o feriado de Corpus Christi, que deixa o mês de junho com um dia útil a menos do que em março.
Mas a expectativa da prorrogação gera dúvidas sobre o comportamento futuro do consumidor. Segundo um ministro próximo do presidente Luiz Inácio Lula das Silva, é "muito provável" que ocorra uma nova prorrogação, mas, dessa vez, ela poderá ser inferior a três meses.
Como a medida vem provocando frustração de arrecadação num momento em que as receitas estão fracas por causa da desaceleração da economia, a equipe econômica passou a considerar a hipótese de não renovar o benefício. A perda de receita estimada com o IPI reduzido, entre janeiro e junho, é superior a R$ 1 bilhão.
Em entrevista concedida à agência Reuters na quarta-feira, Lula disse que o ideal seria manter o IPI reduzido de forma "permanente". A declaração provocou ruído dentro da área econômica, que esperava anunciar uma decisão apenas no fim deste mês. Esclareceu-se também que o governo não trabalha com a hipótese de redução permanente do IPI, mas apenas enquanto durar a crise.
Desde janeiro, os carros populares (até mil cilindradas) estão sendo produzidos com alíquota zero de IPI - antes, pagavam 7%. Os carros de 1.000 a 2.000 cilindradas tiveram o imposto cortado pela metade (de 13% para 6,5% nos modelos à gasolina e de 11% para 5,5% nos modelos de motor a álcool ou flex).
Havia a expectativa de aumento no número de feirões e das promoções para o que até então era o último mês de redução de IPI. Agora, provavelmente, montadoras e concessionárias devem rever seus planos.
Marcos Leite, gerente da concessionária Amazon da Volkswagen, confirma a alta das vendas no início do mês. Até o último fim de semana, segundo ele, as vendas estavam em alta de 15%. No caso da Volks, algumas versões de modelos, como Fox, Gol e Voyage, já possuem fila de espera. O Voyage 1.0, segundo Leite, é o que tem maior espera, podendo chegar a três semanas.
Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sergio Nobre, a retomada da cobrança do IPI deveria acontecer de forma gradual. "Acho prudente que seja feito ao longo de meses, pois ainda temos o problema das exportações pressionando o nível de emprego", diz o sindicalista.
Além das exportações de veículos e comerciais leves, Nobre lembra que o mercado de caminhões, tanto interno como externo, não tem apresentado recuperação. "Diversas montadoras de caminhões estão negociando planos de demissão voluntária na região do ABC na expectativa de resolver o excedente de mão de obra."
No caso dos veículos, nem mesmo os revendedores arriscam um palpite para o caso de o IPI ser retomado. "Acho que será um mês (julho) complicado", diz o presidente da Associação dos Distribuidores Ford (Abradif), Benedito Porfírio Lima.
Em março, a prorrogação do IPI só foi anunciada oficialmente após o último fim de semana do mês. O desempenho das vendas de comerciais leves e automóveis em abril, com o consumidor consciente de que poderia se planejar melhor para aproveitar os descontos, caiu de 261 mil emplacamentos em março para 224 mil no mês seguinte.