Título: Sace elege Brasil como polo da AL
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Fonte: Valor Econômico, 17/06/2009, Finanças, p. C8
A Sace, agência de crédito à exportação do governo italiano, escolheu São Paulo para ser seu polo de negócios na América Latina. A empresa acaba de abrir um escritório na cidade e de fechar um acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para garantir empréstimos que podem chegar a US$ 1,14 bilhão.
O interesse da Sace é estimular negócios ligados à Itália. Para isso, fornece os mais diferentes tipos de garantias com o objetivo de facilitar o acesso ao crédito pelas empresas. Entre os produtos, estão seguro de crédito (protege contra inadimplência), seguro para riscos políticos e garantias financeiras. Também emite bônus (os chamados "surety bonds") que funcionam como garantia de que uma obra será concluída dentro do previsto ou a empresa vai entregar o produto que prometeu.
O italiano Raoul Ascari, diretor de operações (COO) da Sace, passou por São Paulo ontem para participar de um evento de apresentação da empresa e falar das perspectivas de negócios. Em conversa com o Valor após o evento, disse que, por questões de afinidades culturais e históricas, o Brasil é o país dos BRIC (que ainda inclui Rússia, Índia e China) que é mais importante para a Itália.
Segundo o executivo, que antes trabalhou na Fiat nos Estados Unidos, as companhias italianas não são tão globais, mas quando elas vão para o exterior, procuram alguns poucos mercados e o Brasil é um deles. Todos os grandes grupos italianos, diz ele, têm presença no Brasil - desde os mais tradicionais, como Fiat e Pirelli, até os mais novos.
O escritório de São Paulo vai cuidar de todas as operações na região, incluindo Chile, Venezuela e Colômbia. A Sace já tinha exposição ao mercado brasileiro há vários anos, mas agora achou necessário ter presença física, com uma unidade local. Para tocar as operações aqui, contratou o executivo Flávio Bertolossi.
No caso do acordo com o BNDES, vai ser o primeiro da companhia com garantias em moeda local, no caso, o real. Normalmente, as garantias são em moedas fortes, como o dólar ou o euro. "É prova da nossa confiança na moeda e na economia brasileira", disse Ascari.
A Sace pode dar garantias para empréstimos de companhias italianas que operam aqui (ou de suas subsidiárias) ou ainda de companhias brasileiras que vão importar equipamentos da Itália. Em 2008, a Sace deu garantias de US$ 200 milhões à Petrobras, frequente compradora de produtos do país europeu. No geral, as garantias da Sace ficam entre 70% e 80% do valor do empréstimo.
Outro nicho de negócios é oferecer garantias aos bancos para eles emprestarem às empresas. A Sace acaba de fechar acordo com o Banco do Brasil para garantias de até US$ 100 milhões. O objetivo é facilitar o crédito do BB para empresas que comprem produtos "made in Italy", especialmente de pequenas e médias empresas italianas. Ainda entre os bancos, no ano passado, a Sace garantiu US$ 400 milhões ao Itaú.
A Sace, por ser estatal, acaba tendo uma vantagem em tempos de crise, no qual vários bancos foram estatizados, afirma Ascari. "A crise criou uma série de "fraquezas" no setor privado". Já a companhia italiana, que não se arriscou no mercado financeiro (nem em derivativos nem em securitização), terminou 2008 com indicadores financeiros "muito saudáveis". Apesar de ser uma empresa estatal, a Sace tem administração independente, feita como uma companhia privada.
Entre os principais números, o lucro líquido da Sace foi de ¿ 338 milhões em 2008. Ao todo, as garantias dadas ao mercado somam ¿ 27,3 bilhões, dos quais ¿ 1,6 bilhão estão no Brasil. O capital é de mais de ¿ 5,5 bilhões. Os prêmios brutos somaram ¿ 283 milhões.
A crise também provocou aumento da inadimplência. Os sinistros da Sace que costumavam ficar próximos de zero nos anos anteriores, somaram ¿ 20 milhões no ano passado. Ascari diz que em 2009 a inadimplência subiu mais ainda, mas ele acha que a companhia tem condição de renegociar alguns contratos, que são viáveis mesmo em tempos de crise.