Título: Câmbio e alta dos insumos tiram ganho da exportação
Autor: Raquel Salgado e Marta Watanabe
Fonte: Valor Econômico, 14/03/2005, Empresas &, p. B2

Apesar de fecharem o ano passado com lucros maiores, as empresas brasileiras altamente exportadoras perderam rentabilidade com a combinação de juros altos, aumento de insumos e valorização do câmbio. Pelos dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), em dezembro de 2004 a rentabilidade das exportações do Brasil atingiu o fundo do poço, com uma queda de 12,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Na comparação com dezembro de 2002, o melhor ano desse indicador, o tombo chega a 25%. Na Marcopolo, a margem de lucro bruta no ano passado encolheu para 17,1%, frente ao resultado de 19,4% conseguido em 2003. Esse recuo ocorreu apesar do crescimento de 24,3% na produção exportada pelo Brasil, bem acima da evolução da produção mundial da empresa, que foi de 11%, e daquela voltada para o mercado brasileiro, que subiu 2,3%. Para a empresa, a combinação da alta nos preços de matérias-primas (aço e insumos petroquímicos) com a queda do dólar, "influiu decisivamente nas margens e na rentabilidade". As exportações representaram 52,7% da receita líquida no ano passado.

No ano passado, pela medição do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), as matérias plásticas ficaram 50% mais caras. Já a nafta sofreu aumento de 31,2% nos preços em reais, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Para o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a perda de rentabilidade afeta de maneira diferente os diversos setores da indústria. Entre os que mais sofreram no ano passado e podem continuar em desvantagem nas exportações em 2005 estão os que utilizam aço e produtos petroquímicos como insumos. Empresa que se encaixa nesse quadro é a Weg, fabricante de motores elétricos, geradores, produtos para automação industrial, transformadores, entre outros produtos. No ano passado, o custo dos produtos vendidos representou 62,3% da receita operacional líquida, resultado da alta de preços das principais matérias-primas utilizadas: chapa de aço e cobre. Em 2003, essa elevação havia sido de 60,6%. Pelos dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), os preços do minério de ferro no mercado global cresceram 18,6%. De acordo com a pesquisa da FGV, os preços de aço, ferros e derivados subiram quase 60% no atacado. Para amenizar tais pressões de custo e os efeitos da valorização de quase 9% do real ante o dólar em 2004, a Weg buscou ampliar a participação de suas exportações em mercados fora da chamada zona do dólar. Em 2004, 38% da receita total bruta da empresa veio da América do Norte e 17% da América Central e do Sul. São percentuais inferiores aos de 2003, quando ficaram em 40% e 15%, respectivamente. Em contrapartida, o montante das vendas para a Europa pulou de 29% para 32%. Essa busca por mercados europeus aliada à maior produtividade e escala de produção permitiram à Weg aumentar seu lucro líquido em 31% no ano de 2004. Algumas indústrias foram tão afetadas pelo câmbio que viram não só sua rentabilidade como seu lucro despencar. É o caso da Santista Têxtil, que apesar de ter tido aumento superior a 20% nas receitas, mostrou em 2004 R$ 67,9 milhões de lucro, contra R$ 80,4 milhões em 2003 - um recuo de 15,5%. A empresa atribui o resultado inferior à valorização do real e do peso chileno, frente ao dólar. Na avaliação de Gomes de Almeida, do Iedi, o setor têxtil e de vestuário está em uma encruzilhada. Ao mesmo tempo em que seus principais mercados compradores são as Américas, que trabalham com o dólar americano, seus concorrentes internacionais estão cada vez mais fortes e suas moedas não se valorizaram tanto ante o dólar como ocorreu com o real. "China e Índia ameaçam produtos brasileiros não só no cenário externo, mas também no doméstico", alerta o economista.