Título: "O vírus da paz está comigo"
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 16/03/2010, Mundo, p. 18

Em Jerusalém, Lula defende Estado palestino, critica assentamentos e revela a vontade de ajudar no diálogo

Em plena Knesset (Parlamento), o presidenteLuiz Inácio Lula da Silva defendeu a existência de um Estado palestinoseguro e soberano, exortou o início de negociações multilaterais noOriente Médio e fez uma contundente crítica ao governo de Israel, aocitar uma frase do físico Albert Einstein: A paz não pode ser mantidapela força; somente pode ser alcançada pelo entendimento. O primeirodia do tour do líder brasileiro pela região foi marcado ainda peladescortesia do chanceler Avigdor Lieberman, que boicotou o discurso e ojantar oficial, em resposta à recusa de Lula em visitar o túmulo deTheodore Herzl o húngaro fundador do movimento sionista. Tambémcoincidiu com o agravamento da crise entre Estados Unidos e Israel, porconta da construção de 1,6 mil casas no assentamento judaico de RamatShlomo, em Jerusalém Oriental (a parte árabe da cidade). Oprimeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, avisou ontem que nãovai impôr limites às obras. Pelos últimos 40 anos, nenhum governoisraelense jamais restringiu as construções nas imediações deJerusalém, lembrou.

Antes de partir para a ofensiva, Lula foi cobrado pelo governo epela oposição israelense por sua aproximação com o presidenteiraniano, Mahmud Ahmadinejad. Também em Jerusalém, ouviu do colegaShimon Peres que Israel não se opõe ao Irã. Nosso inimigo é aliderança fanática e extremista de Ahmadinejad, que fala abertamentesobre a erradicação de Israel, disse. De Netanyahu, escutou um apelopara que o Brasil se some à coalizão contra o Irã. Esta coalizãoreúne países que querem impedir Teerã de se dotar de arma nuclear,afirmou o premiê. Mais enfático foi o líder da Knesset, Reuven Rivlin,para quem manter relações com Teerã não contribui para a paz. Segundoele, ser publicamente contra as sanções pode ser visto como sinal defraqueza.

Enquanto Lula focava-se na defesa da paz, as autoridadesisraelenses criticavam o Irã. Pela manhã, no encontro com Peres, obrasileiro aparentou bom humor. Eu acho que o vírus da paz está comigodesde que estava no útero da minha mãe. Não me lembro do dia em quebriguei com alguém, disse o visitante. Senhor Peres, sonho com o diano qual o Oriente Médio terá paz, para que todos os povos da regiãopossam se beneficiar da prosperidade, arrematou Lula, apelidado peloanfitrião de César em referência ao imperador da Roma Antiga. Osenhor é um César. É um presidente que leva a esperança de paz. O mundoolha para o senhor e vê esperança e sonho, que o senhor transformou emfeitos, declarou Peres, sem defender uma mediação por parte do Brasil.Ao lado do presidente israelense, Lula indiretamente deixou claro quegostaria de ser convidado para auxiliar na busca de um entendimento. Éimportante que se chame mais gente, que se envolva mais gente e que seconverse mais.

O Brasil não será um grande ator no Oriente Médio. Todos aquisabem disso, afirmou ao Correio, por e-mail, o analista israelenseBarry Rubin, diretor do Centro de Pesquisa Global em AssuntosInternacionais (Gloria), com sede em Herzliya a 56km a sudeste deJerusalém. Ele desqualificou o uso da frase de Einstein no contexto doconflito. A força é vital para a manutenção da paz, mas não o únicofator, disse. Por sua vez, Gerald Steinberg, fundador do Programa deGerenciamento de Conflitos e Negociação da Universidade de Bar-Ilan,lembra que o Brasil é poderoso, enquanto vê Israel como pequeno evulnerável. Precisamos da força militar para sobreviver.

Retrocesso Em seu pronunciamento na Knesset, Lula falou sobre as ambições depaz. Defendemos a existência de um Estado de Israel, soberano, seguroe pacífico. Ele deverá conviver com um Estado palestino, igualmentesoberano, pacífico, seguro e viável, sobretudo pelo traçado de seuterritório, disse o presidente, que alertou sobre a políticaisraelense. Assistimos à paralisação das negociações e a iniciativasunilaterais que as dificultam, como o anúncio da construção deresidências em Jerusalém, advertiu. De acordo com Lula, é chegada ahora de abrir um círculo virtuoso de negociações. Ao enfocar a crisenuclear, evitou usar o nome Irã. Temos orgulho de proclamar que aAmérica Latina e o Caribe são livres de armas de destruição em massa,declarou. Gostaríamos que o exemplo de nosso continente pudesse serseguido, acrescentou, aplaudido de pé.

Embaixador vê a pior crise em 35 anos

As declarações de Michael Oren, embaixador deIsrael nos Estados Unidos, deram um tom ainda mais grave à crisedeflagrada pelo anúncio da construção de 1,6 mil casas em umassentamento judaico de Jerusalém Oriental. As relações entre Israel eEstados Unidos passam pela crise mais grave desde 1975, afirmou odiplomata, durante reunião, por telefone, com os cônsules israelensesnos EUA durante o fim de semana. Oren, um renomado historiador doOriente Médio, referia-se a uma grave crise em 1975 entre os doisaliados, quando os Estados Unidos obrigaram Israel a executar umaretirada parcial do Monte Sinai egípcio, na época ocupado pelo Estadohebreu. A informação sobre a reunião entre Oren e seus comandados foidivulgada pelo jornal israelense Yediot Aharonot.

A segunda-feira, que começou tenebrosa para Jerusalém e Washington,terminou com a tentativa do Departamento de Estado norte-americano depôr panos quentes na crise. Israel é um aliado estratégico dos EstadosUnidos e continuará sendo, prometeu o porta-voz Philip Crowley.Apesar de a questão da colônia ser a origem da crise, nossocompromisso com a segurança de Israel permanece inflexível,acrescentou. Crowley afirmou que os EUA aguardam uma resposta formalde Israel às críticas em torno das novas construções em Jerusalém.Quando (a secretária de Estado Hillary Clinton) apresentou o que, paraela, deveria ser feito, pediu uma resposta formal ao governoisraelense, e esperamos essa resposta, disse.

A reação de Jerusalém foi quase imediata, mas não satisfez osnorte-americanos. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu,garantiu que Israel continuará a construir em Jerusalém Oriental.Quando tivermos essa resposta, nós reagiremos, insistiu o porta-voz,aparentemente ignorando as declarações do premiê à imprensa. Em visitaao Cairo, a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, considerouque a decisão de Netanyahu coloca em perigo a realização denegociações entre israelenses e palestinos.

Em entrevista ao jornal Maariv, um ministro do partido do premiê sob condição de anonimato acusou o presidente dos EUA, Barack Obama,de tentar derrubar o governo de Netanyahu e de explorar a crise paraobter concessões de Israel no processo de paz. Enquanto a criserepercute, a situação segue tensa na Cisjordânia, onde 10 estudantesficaram feridos ontem (dois deles a tiros), em confrontos com soldadosisraelenses.