Título: A morna recuperação da economia e a cautela do BC
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2009, Opinião, p. A9

Depois de surpreender o mercado com a redução da taxa básica de juros (Selic) além do esperado, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) deixou claro, na ata da última reunião divulgada na quinta-feira, que está muito próximo de concluir o processo de alívio monetário iniciado em janeiro. Segundo o comitê, "a despeito de haver margem residual para um processo de flexibilização, a política monetária deve manter postura cautelosa, visando assegurar a convergência da inflação para a trajetória de metas".

No mercado, as apostas de novos cortes de juros até o fim do ano variam de 0,25 a 0,5 ponto percentual. Na hipótese mais otimista, a taxa Selic cairia para 8,75% ao ano. Em termos reais, se a inflação ficar na meta em 2009, a taxa básica diminuiria, portanto, para algo em torno de 4% ao ano, o menor valor desde o lançamento do Plano Real, há 15 anos.

O Copom justificou a cautela com os juros de agora em diante, alegando que o corte efetuado de janeiro para cá - de 4,5 pontos percentuais - ainda produzirá seus efeitos na atividade econômica graças à defasagem natural dos canais de transmissão da política monetária. O comitê argumentou, também, que há riscos de a inflação superar as previsões tanto do Banco Central quanto do mercado nos próximos meses. A preocupação se concentra em 2010.

Quando se observa o comportamento da economia neste momento, a postura parcimoniosa do Copom parece excessiva. A economia brasileira viveu, nos últimos dois trimestres, o seu pior momento nesta crise financeira global. De janeiro a março, a indústria de transformação sofreu queda de 12,6%, provocada por forte movimento de desestocagem - nos últimos dois trimestres, o total de estoques da economia brasileira foi reduzido, respectivamente, em 2,7% e 3,3% do PIB, as maiores contrações desde o último trimestre de 2002.

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que revela os investimentos das empresas na compra de bens e equipamentos, recuou 14,03% no primeiro trimestre. Como bem lembrou o economista Armando Castelar, em artigo no Valor, a taxa total de investimento, incluindo a FBCF e a variação dos estoques, caiu de 18,4% para 13,4% do PIB entre o primeiro trimestre de 2008 e o de 2009. Isto por si só já diminuiria o espaço para o crescimento após a crise global.

O fato, contudo, é que a análise de outros indicadores das contas nacionais mostra que eles não se comportaram de forma tão negativa quanto os da indústria. O item "outros serviços" (serviços prestados às empresas e às famílias, de alojamento e alimentação, associativos, domésticos, manutenção e reparação, saúde e educação mercantil), por exemplo, cresceu 7% no primeiro trimestre do ano.

No mesmo período, o consumo das famílias, apesar da intensidade da crise, aumentou 1,3% na comparação com janeiro-março de 2008. Há dúvidas sobre a manutenção do ímpeto dos consumidores, uma vez que as medidas fiscais de estímulo adotadas pelo governo não têm caráter permanente. Já o consumo do setor público, que responde por parcela significativa da demanda (22,4% do PIB), avançou 2,7% de janeiro a março. Este percentual está em linha com a média de consumo verificada na última década - 3%.

Embora o governo não dê sinais de que vá reduzir seus gastos nos próximos meses, não se deve esperar uma contribuição para a demanda maior do que a que já vem sendo feita. A razão para isso é que, nos últimos sete meses, a arrecadação caiu de forma consecutiva e acentuada, limitando a ampliação da ação fiscal anticíclica do governo central.

Em Brasília, a área técnica calcula que, no fim do ano, o Brasil poderá estar crescendo em torno de 3,5% ao ano, taxa bem inferior à média dos últimos dois anos (5,3%), mas ainda razoável para uma economia que mergulhou em recessão no primeiro trimestre do ano.

Se esse quadro se confirmar, a reativação da economia não será intensa o suficiente para desequilibrar oferta e demanda e, assim, haverá motivos para que o Copom reavalie a atitude de cautela adotada agora. A recuperação está se dando de forma díspar, sem que se aviste com clareza, no horizonte, a confirmação de pressões inflacionárias apontadas pela ata do Copom.