Título: OMC alerta sobre novas barreiras comerciais
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 07/07/2009, Internacional, p. A10
O protecionismo esteve no centro da agenda ontem na Organização Mundial do Comércio (OMC). Dirigentes dos principais organismos multilaterais destacaram que novas barreiras comerciais, financeiras e ambientais ameaçam sobretudo as economias emergentes. A mensagem ao G-8 é clara: é mais do que tempo de concluir a Rodada Doha para liberalizar e evitar futuras guerras comerciais.
No evento, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luiz Alberto Moreno, mostrou que as exportações da América Latina sofrem tanto com a enorme retração da demanda global como com problemas crônicos de infraestrutura e de instituições.
Segundo estudo do BID, o atraso nas alfândegas na América Latina aumenta entre 5% e 15% os custos de transporte das exportações. O custo médio do frete marítimo da América Latina para os EUA é quase 50% maior que o dos mesmos produtos originários da Europa.
Além disso, o impacto de redução de 10% nas taxas de frete poderia aumentar o volume de comércio em 20 vezes mais do que uma redução similar nas tarifas dos países importadores. Para completar, a região teria ganhos importantes com harmonização de regras de origem, de procedimentos aduaneiros e outras facilitações.
A exposição de Moreno coincidiu com um relatório do Fórum Econômico Mundial que coloca o Brasil em 87ª posição entre 121 países em relação a capacidade no comércio internacional. O estudo examina instituições, políticas e serviços que facilitam o fluxo internacional de mercadorias.
De acordo com o relatório, a péssima posição do Brasil revela problemas de transparência nas alfândegas, que provocam atrasos e prejuízos, e de proteção do mercado, entre outros. Para o presidente do BID, não há nada de novo. "É comum ter altos custos na região com esses problemas. E isso inclui o Brasil", afirmou.
Pascal Lamy, diretor-geral da OMC, reuniu os principais dirigentes do FMI, Banco Mundial, OCDE, Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud) e de bancos regionais de desenvolvimento para tratar de ajuda ao comércio de países pobres.
Falou-se sobretudo na ameaça do protecionismo, que ainda não está fora de controle, mas é risco real. "Os líderes governamentais precisam reconhecer que estão brincando com fogo", alertou o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Como exemplo, ele citou o Buy America, programa no qual os americanos discriminam produtos de outros países; do Buy China, parte do programa de estímulo chinês; além do aumento de medidas antidumping, de barreiras não tarifárias e do retorno de subsídios a exportação de lácteos.
Zoellick citou queda de 35% nas exportações da Europa Oriental, 25% da Ásia e 20% da América Latina até abril. Ao mesmo tempo, reconheceu que uma pequena melhora na economia já vai dar um forte impulso ao comércio. É que cada dólar de exportação contém mais importações do que antes.
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI, apontou "um novo protecionismo": o financeiro. Ele criticou o modo como grandes bancos dos países ricos repatriaram dinheiro dos emergentes sem "se preocupar com os estragos e com o impacto" nessas economias.
Com base em cem crises bancárias e financeiras que o FMI acompanhou, Strauss-Kahn acha que não se pode resolver a atual com protecionismo financeiro, que leva bancos a concentrar empréstimos para empresas de seus países.
Outros bancos regionais apontaram o crescente risco de "protecionismo verde", sobretudo contra produtos asiáticos. (AM)