Título: G-8 planeja prestar contas sobre eficácia de medidas contra a crise
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 07/07/2009, Internacional, p. A10
O G-8, grupo dos sete países mais ricos do mundo (mais a Rússia), deverá anunciar no encontro de cúpula que começa amanhã na Itália sua "determinação" de implementar todas suas decisões para a recuperação e o crescimento sustentável da economia mundial.
O grupo planeja adotar um amplo mecanismo de "accountability" (prestação de contas) para monitorar e fazer o balanço em 2010 do progresso das medidas focadas na crise econômica e financeira e em sua dimensão social. O objetivo com isso é restaurar a confiança nas decisões do G-8 e a credibilidade de seus comunicados.
O Valor teve acesso a pontos centrais do documento que está sendo negociado no grupo formado por EUA, Alemanha, Japão, França, Canadá, Itália, Reino Unido e Rússia. No esboço do documento, o G-8 se compromete a atuar firmemente para tratar dos "desafios interconectados da crise, pobreza e mudança climática". Diz que a situação de crise requer ação imediata e visão de seus membros, engajados em "promover uma economia de abertura, inovadora, sustentável e justa". E isso, reconhece o grupo, requer liderança.
"Estamos determinados a assumir nossa responsabilidade e implementar as decisões", diz o rascunho, o que vai na direção do que países como o Brasil vêm pedindo: manter os gastos públicos, pensar em estratégia de redução desses gastos, mas só consolidá-la quando a economia estiver recuperada.
O G-8, que vê cada vez mais contestado seu papel de diretório econômico do planeta, pode tentar incorporar a ideia de monitoramento das medidas num comunicado conjunto com o G-5, que reúne os principais emergentes: Brasil, China, Índia, México e África do Sul.
O G-8 dará ainda sinal verde para a iniciativa italiana de criar um conjunto de regras comuns para as finanças e o mundo dos negócios, batizada de Lecce Framework, vista como uma base para um crescimento estável no longo prazo.
Esta semana haverá o debate também do chamado Major Economies Forum, de 17 nações que representam 80% das emissões de gases do planeta, sob a presidência de Barack Obama.
Nesse cenário, o G-8 sinaliza que está comprometido em alcançar um "acordo global ambicioso" na cúpula climática de Copenhague, em dezembro, sobre combate a emissões de gases, envolvendo países ricos e emergentes com "diferentes responsabilidades e respectivas capacidades".
"Vamos trabalhar juntos para restaurar a confiança e levar a um crescimento verde", acrescenta o documento, em referência a um novo modelo de crescimento que dá ênfase à inovação e à descarbonização das economias.
O grupo se compromete também com mais ajuda ao desenvolvimento de países pobres, após engajamentos específicos já adotados, mas que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diz ser US$ 20 bilhões abaixo do prometido.
G-8 e G-5 negociam o comunicado com pistas para o futuro da economia mundial, enquanto que países fora do banquete na Itália destacam riscos e ameaças.
O G-77, grupo de 130 países em desenvolvimento mais a China, divulgou um duro comunicado ontem em Genebra insistindo que "muito precisa ser feito" para tirar a economia mundial da crise. Esse grupo, do qual o Brasil faz parte, defende uma resposta urgente com mais coordenação dos países para atenuar o impacto negativo da crise e para adotar reformas estruturais no longo prazo a fim de evitar outras turbulências econômicas.
O G-77 reclama da falta de crédito para os países em desenvolvimento, estimada em US$ 1 trilhão somente este ano. Diz que, mesmo se a economia mundial se recuperar lentamente, nos próximos anos os países em desenvolvimento enfrentarão enorme dificuldade para honrar seus compromissos externos.
O G-77 e a China avisam que podem precisar de flexibilidades da Organização Mundial do Comércio (OMC) para proteger seus balanços de pagamentos, ou seja, podem aumentar tarifas de importação. Também dizem que os países em desenvolvimento não podem ser punidos se precisarem impor restrição temporária ao capital para proteger seus mercados.
A mensagem final é sobre a necessidade de um sistema global de reservas mais equilibrado, o que pode passar por papel mais efetivo da "moeda" do FMI, os DRS, a ser completado por moedas regionais no comércio.