Título: Sob pressão de Cunha, diretor de Furnas ameaça sair
Autor: Goulart , Josette
Fonte: Valor Econômico, 17/07/2009, Política, p. A8

Mais uma diretoria de Furnas Centrais Elétricas, a de operações, é alvo do extraordinário apetite do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) por cargos no setor elétrico. Cunha, que paralisou no Congresso a votação da CPMF quando tentava nomear o ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas, também conseguiu indicar o sucessor de Conde, Carlos Nadalutti Filho.

O diretor que quer deixar Furnas é Fábio Machado Resende, que dirige a área de operações e comercialização de energia desde o início do governo Lula. Ele já é aposentado e quer sair novamente, o que só está sendo adiado a pedido do governo. Resende é considerado um técnico de primeira linha que fez carreira na própria estatal. O grupo de Eduardo Cunha fracassou, no passado, ao tentar atribuir sua nomeação ao irmão, o ministro Sergio Rezende, ministro da Ciência e Tecnologia em denúncia de nepotismo feita junto ao Tribunal de Contas da União (TCU). Na época, Resende se defendeu lembrando que tinha sido nomeado antes do irmão ministro.

O Valor apurou que Eduardo Cunha cogita nomear para a diretoria de operações de Furnas Roberto Ramos dos Santos, ex-diretor técnico da empresa de transmissão Interligação Elétrica do Madeira. Ele seria sogro do deputado federal Bernardo Ariston (PMDB-RJ), presidente da Comissão de Minas e Energia da Câmara.

No governo, Furnas é considerada a empresa mais vulnerável entre as controladas da Eletrobrás, que hoje estão loteadas entre nomeados pelo grupo de José Sarney e o de Eduardo Cunha. Existem alguns indicados do PT que tentam ficar de olho nos negócios que estão sendo tocados. Nem sempre é fácil. Valter Cardeal, homem de confiança da ministra Dilma Rousseff na Eletrobrás, precisou acompanhar o leilão da hidrelétrica Santo Antonio, no rio Madeira, ao lado de Conde na sede de Furnas em Botafogo, no Rio.

Além de padrinho político do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB-MA), Sarney tem entre seus afilhados os presidentes da Eletronorte, Jorge Nassar Palmeira, e o da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes. É nessa última que trabalha outro protegido do presidente do Senado, o diretor financeiro Astrogildo Quental, investigado pela operação Boi Barrica, da Polícia Federal, e que tem como centro o empresário Fernando Sarney, indiciado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha.

A única subsidiária da Eletrobrás sem interferência do grupo Sarney-Cunha é a Chesf, que tem seu comando dividido entre o PSB e o PT. Na Eletronorte, onde o governo tem a diretoria de planejamento e engenharia (Adhemar Palocci, irmão do ex-ministro da Fazenda), o controle é do grupo de Sarney. Na estatal do Rio, o outro cargo de confiança do governo, além de Resende, é o diretor de gestão corporativa, Luís Fernando Paroli Santos, indicado pelo deputado Odair Cunha (PT-MG).

Nos últimos dois anos Furnas teve quatro superintendentes jurídicos, dois de responsabilidade social e cultural e três chefes de gabinete da presidência. O grupo de Eduardo Cunha tentou trocar o auditor mas, como ele é ligado diretamente ao conselho de administração, a idéia foi vetada. Também foram frustradas as três tentativas de assumir o controle da Fundação Real Grandeza, fundo de pensão dos funcionários de Furnas e da Eletronuclear.

A próxima tentativa deve acontecer em outubro, quando vence o mandato do atual presidente, Sergio Wilson Fontes, que só poderá ser reconduzido mais uma vez. Deve ser outra batalha. No mês passado Eduardo Cunha almoçava no restaurante Colúmbia, na rua da Assembléia, no centro do Rio, quando um cliente sentado em uma mesa próxima ouviu o deputado dizer que a Real Grandeza era a chave do seu esquema de campanha e por isso era preciso "tirar aqueles caras de lá".

Procurado, o deputado Eduardo Cunha negou que esteja indicando Roberto Ramos dos Santos ou qualquer nome para Furnas, se dizendo também "cansado dessas fofocas", principalmente sobre a Fundação Real Grandeza. "Não tenho candidato, meu partido que é o PMDB já indicou quem tinha que indicar", disse. O deputado também disse que não freqüenta o restaurante Columbia há mais de três anos e por isso a conversa relatada por fonte do Valor "não é verdadeira".