Título: Economista-chefe do HSBC acredita em novo corte da taxa em setembro
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 23/07/2009, Finanças, p. C1

A decisão de ontem do Copom do Banco Central, de reduzir em 0,5 ponto percentual a taxa Selic, para 8,75% ao ano, sancionou as expectativas do mercado, mas ao contrário da reunião anterior, a nota que acompanhou a decisão não deixou clara as intenções da autoridade monetária com relação ao fim do atual ciclo de baixa. Essa é a visão do economista-chefe do HSBC, André Loes. Para ele, será preciso esperar a Ata (que sai na próxima quinta-feira) para tirar conclusões. Ainda assim, com as informações disponíveis, ele mantém a expectativa de mais um corte de 0,25 ponto na reunião de setembro.

Se para ele ainda é incerto quando será o último corte, está claro que o patamar de juro real, na casa dos 4% ao ano, é muito baixo para as condições da economia brasileira. "O Brasil pode manter esse nível por um ano, aí entra outra perna do ciclo", completou.

Valor: Como o senhor avalia a decisão do Banco Central? Está encerrado ao atual ciclo de queda dos juros?

André Loes: Ao contrário da reunião anterior, quando o Banco Central foi muito explícito, hoje [ontem] ele basicamente falou que a taxa atual "é consistente com um cenário inflacionário benigno", está ajudando a convergir a inflação para a meta e, ao mesmo tempo, a ser contracíclico sem risco inflacionário. Ele não deu nenhuma indicação para a maior discussão do mercado, que é a próxima reunião. Nossa projeção é de mais 25 pontos base de corte. Estava ficando mais preocupado, porque a expectativa de inflação começou a subir. Mas diante desse statement tem de esperar a Ata. Se tivesse uma nota muito preocupada, eu poderia até mudar [a projeção]. Mas pela nota, o Banco Central continua com a visão tranquila, falando explicitamente em cenário benigno. Se não tiver nenhuma indicação nova na Ata, muito diferente dessa, com os dados que a gente tem hoje, vamos manter a previsão de mais um corte de 0,25 ponto. E aí para.

Valor: O que justificaria mais um corte na Selic?

Loes: O BC está dizendo que o cenário para ele é benigno. É uma indicação de que ele tem espaço para dar mais alguma coisa. Há uma preocupação do mercado, que inclusive se refletiu na curva de juros, de que se tenha um risco inflacionário maior do que estava explícito nas últimas comunicações do Banco Central. Mas a comunicação de hoje parece tranquila. Obviamente, na Ata ele tem mais espaço para desenvolver e podemos ter um melhor entendimento do quão tranquilo ele está.

Valor: Como o senhor analisa esse risco inflacionário?

Loes: A economia vem se recuperando de uma maneira consistente. Isso já estava no nosso cenário, claramente mais otimista que o resto do mercado. Esperamos queda de 0,3% do PIB para este ano e crescimento de 4,1% para o ano que vem. Mas com o que vemos, não teríamos um fechamento de hiato do produto antes do segundo trimestre do ano que vem, de forma que demoraria um tempo para [o BC] ficar preocupado com elevação da inflação. E tem outra coisa. Estamos próximo do fim desse ciclo de corte, que foi um ciclo longo, e o mercado já se posiciona para que o próximo movimento seja na posição contrária. Como foi um ciclo longo, o mercado fica pedindo prêmio na curva [de juros].

Valor: Se de fato essa foi a última redução, devemos permanecer por algum tempo com juro real abaixo de 5%. Esse é um patamar razoável?

Loes: Acho que é baixo. O juro vai ter de subir lá na frente. Só acho que não é no início do ano que vem, como a curva [de juros] está precificando. Devemos ter chegado num nível abaixo da taxa neutra e em algum momento deve voltar. Política monetária é ciclo. A cada ciclo, tem-se conseguido no Brasil que o ponto médio seja num nível menor. Mas é difícil dizer qual é a taxa neutra, porque o Brasil está mudando. Quanto melhor a situação do país, menor pode ser o juro real. A impressão que eu tenho é que a taxa que a gente está hoje não pode permanecer por muito tempo. Pode permanecer por um ano, talvez um pouco mais. E aí entramos na outra perna do ciclo, que é puxar o juro para cima. Essas coisas são todas momentâneas. Não sei dizer qual é a taxa neutra entre esse ciclo e o próximo. Pode ser que seja cinco e pouco, 5,5%. Mas perto de 4% me parece que é abaixo do neutro.