Título: Brasil quer usar Cuba para vender ao Caribe
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 08/07/2009, Brasil, p. A6

Cuba pode se tornar uma plataforma de exportação de produtos de indústrias brasileiras ao Caribe, a começar pelos medicamentos genéricos, afirmou o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, um dia antes de partir para a ilha governada por Raúl Castro, liderando uma missão comercial com representantes de 12 empresas dos setores farmacêutico, siderúrgico, de alimentos, construção e de energia.

Jorge admite, porém, que uma das principais motivações do empenho comercial com Cuba é ajudar a ilha a contornar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, o principal mercado dos países caribenhos.

"Esse bloqueio é absolutamente incorreto, de qualquer ponto de vista", argumenta o ministro, ao defender a "ajuda" a Cuba. O país vem se abrindo gradativamente a investimentos estrangeiros associados com o governo comunista, não cria problema para remessas de dividendos e tem acordo de proteção de investimentos com outras nações, advoga Miguel Jorge, que tenta negociar com as autoridades a retomada de um projeto de montagem de equipamentos rodoviários - deixado de lado em favor da importação de produtos prontos da China.

"Se Cuba é um mercado que interessa aos chineses, por que não nos interessaria?", pergunta. Os números do comércio entre Brasil e Cuba são menores que as cifras de um dia de exportações e importações brasileiras: no primeiro semestre de 2009, o comércio, somando compras e vendas entre os dois países, somou apenas US$ 131 milhões, quase 47% abaixo dos valores do ano passado, quando a economia cubana já sentia o impacto negativo dos furacões Gustav e Ike.

Até a devastação causada pelos furacões, Cuba vinha crescendo a taxas bem superiores à média latino-americana (11,1% em 2006, 7,3% em 2007). Em 2008, o crescimento ficou em apenas 4,3%. O saldo comercial ainda é favorável ao Brasil, mas também sofreu uma queda pesada, de US$ 226 milhões no primeiro semestre de 2008 para menos de US$ 100 milhões nos primeiros meses deste ano.

Miguel Jorge informa que as firmas de construção civil brasileiras têm interesse em obras do governo cubano, para as quais o Brasil já oferece uma linha rotativa de financiamento de US$ 100 milhões, do BNDES. O país também é um bom mercado potencial para as pequenas e médias empresas brasileiras, argumenta o ministro, que estimula empresários de menor porte a participar da Feira de Havana, para a qual o Brasil enviou uma comitiva de 45 firmas no ano passado e, segundo o Ministério do Desenvolvimento, deverá enviar de 50 a 60 neste ano.

A missão é organizada pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, e o presidente da instituição, Reginaldo Arcuri, deverá acompanhar Miguel Jorge em encontros com os ministros cubanos de Energia, Comércio, Comércio Exterior e Investimento Estrangeiros, Indústria Básica, Sideromecânica, Alimentícia, Informática e Comunicações e Agricultura.