Título: Dúvidas sobre o desaquecimento
Autor: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 11/03/2005, Brasil, p. A2

Na contramão do senso comum, que diagnostica desaceleração econômica do final do ano passado para cá, o diretor de Planejamento do BNDES, Antônio Barros de Castro, economista e estudioso do processo industrial, esmiuçou os últimos dados do IBGE e chegou a uma conclusão surpreendente: entre o primeiro e o segundo semestre de 2004, o que ocorreu, de fato, foi uma aceleração da taxa de crescimento da produção industrial. Ou seja, a elevação dos juros básicos (Selic) de setembro para cá não "triscou" no desempenho do setor industrial. Ainda bem. Ao contrário, a confrontação do primeiro com o segundo semestre (a medida semestral é uma agregação de dois trimestres, pelo critério ponta-a-ponta), dá os seguintes resultados para o PIB de 2004: o setor de serviços cresceu 2,59% no primeiro semestre e 1,21% no segundo; a agropecuária cresceu 2,61% no primeiro e despencou para apenas 0,10% no segundo semestre; já a indústria teve comportamento inverso, com crescimento de 2,61% no primeiro e aceleração para 3,21% no segundo semestre. Assim, serviços se desaceleraram e a agropecuária levou um tombo. Mas o que isso significa, rigorosamente, não se sabe, avalia Barros de Castro. Há problemas estatísticos insolúveis na interpretação dos dados trimestrais do setor agrícola, pois a colheita no país se dá ao longo do ano com variados produtos. Ao comparar um trimestre com o outro, o máximo que se pode dizer é que os produtos, cuja colheita ocorreu no trimestre de referência, cresceram mais do que os produtos colhidos do trimestre anterior. Isso vale muito pouco na análise do PIB setorial. Na área de serviços, que hoje é o que mais pesa na formação do PIB (53%), há dificuldades que também obscurecem uma análise mais acurada. Barros de Castro cita como exemplo a administração pública, segmento que responde por cerca de 15% do produto. A administração pública, no Brasil, é medida pelo aumento da população de um trimestre para outro, e pelas variações do atendimento ambulatorial e das matrículas escolares no mesmo período. "O que quer dizer a variação da população de um trimestre para outro?", indaga ele. Provavelmente, nada. O elemento mercurial, que dá o pulso da economia, sem atrapalhações estatísticas intransponíveis, é a indústria. É o comportamento da produção industrial, argumenta o diretor do BNDES, que representa o termômetro do que está acontecendo na economia. E o que os dados da indústria no ano passado estão dizendo é que não ocorreu o fenômeno da escadinha, entendido como sistemáticas reduções em degraus do produto. O comportamento da produção industrial em janeiro, com decréscimo de 0,5%, não é um fato relevante, garante ele. Em 12 meses, a indústria cresce 8,5%. Do ponto de vista qualitativo, Barros de Castro também apresenta dados e argumentos muito interessantes. Em 2004, o crescimento do setor de máquinas e equipamentos foi de 19,3%. Cifra superior ao aumento de 10,9% da formação bruta de capital fixo e dos 5,9% da construção civil. Portanto, o que há de surpreendente, segundo ele, é o setor de máquinas e equipamentos.

Capacidade de crescer é maior sem inflação

Com as mãos tomando o pulso do paciente, através do Finame, o diretor do BNDES indica que os desembolsos para aquisição de bens de capital sem rodas (excluídos caminhões, ônibus e máquinas agrícolas) têm sido "extraordinários". Do primeiro para o segundo trimestre de 2004, os desembolsos do Finame cresceram 27% nominais. Do segundo para o terceiro trimestre, o aumento foi de 23%, percentual que se repetiu do terceiro para o quatro trimestre. "Espantosamente", diz ele, em janeiro deste ano houve crescimento dos desembolsos de 38%, comparado à média do último trimestre do ano passado. Isso significa forte demanda pelo elemento crucial do investimento, que são as máquinas e equipamentos; um apetite por parte das empresas por absorção de novas máquinas, mais rápidas, que produzem com qualidade superior uma maior variedade de bens e consomem menos energia. "O jogo, portanto, está centrado na busca de produtividade e não em levantar novas fábricas", atesta Barros de Castro. Os empresários estão explorando melhor o potencial da estrutura produtiva, tirando das gavetas projetos que foram abortados por golpes de demanda que, no passado recente, mataram expectativas, o que permite crescer com alta produtividade do capital que está, agora, sendo agregado. "Isso é uma beleza! ", diz o economista, até com certa emoção. "O investimento concentrado em máquinas e equipamentos favorece o aumento da produção e isso significa que se pode atingir uma maior taxa de investimento com impacto neutro sobre a inflação. É um crescimento que não coloca em risco a estabilidade macroeconômica", garante. Em resumo, trata-se de um crescimento de excelente qualidade, que vem associado a um aumento do poder aquisitivo das classes C-D e E, e que, felizmente, não está sendo afetado pelo aumento dos juros. Para o diretor do BNDES, se a política monetária conter esse processo, será muito ruim, porque estará freando uma solução, "um atalho que está sendo encontrado pelo país, que está reaprendendo o caminho do crescimento". Esse atalho não exige salto da taxa de investimento global, porque está focado na parte mais leve dos investimentos, que são as máquinas e equipamentos, e permite crescimento "de transição". Com ele, acredita Barros de Castro, ganha-se prazo de dois a três anos para ir montando a infra-estrutura necessária à sustentação do processo, e ir construindo, simultaneamente, "a máquina do crescimento sustentado". O Brasil ainda não está "na rota do crescimento", como China e Índia. Aliás, ainda está distante de uma rota definida. "Saímos do reaquecimento, entramos num crescimento transitório e ainda não definimos nosso crescimento sustentável de médio e longo prazo", diz. O fato, porém, é que estão ocorrendo, nesse momento, mudanças importantes, que constituem uma "ruptura", que impede que se façam projeções com base nos dados do passado. Há fenômenos novos que resultam em capacidade mais robusta de crescer de forma não inflacionária. É para isso que o diretor do BNDES chama a atenção. O que exige, portanto, prudência no manejo dos instrumentos de política macroeconômica.