Título: Crescimento econômico impulsiona o gás natural
Autor: Luis Domenech
Fonte: Valor Econômico, 11/03/2005, Opinião, p. A12
Os resultados da economia brasileira em 2004 e a estabilidade do país junto ao cenário internacional foram bastante positivos e as perspectivas para este ano também são de crescimento, o que deverá ajudar a impulsionar os negócios no Brasil, de forma geral, e em especial para a indústria do gás natural. Em 2004, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo Banco Central, deve ficar entre 4,9% e 5%, a maior taxa dos últimos dez anos. Além disso, a expectativa do BC é que o crescimento neste ano fique em torno de 4%. A indústria paulista está em acelerado ritmo de crescimento e o superávit da balança comercial brasileira em 2004 foi o maior da história, com US$ 33,7 bilhões. O país nunca exportou tanto. Particularmente para a indústria do gás natural, notícias como estas só tendem a dar maior sustentação aos planos de crescimento deste tão atrativo mercado. Um dos pilares necessários à ampliação do mercado de distribuição de gás natural canalizado no país é a ampliação da rede de infra-estrutura e a malha está sendo ampliada. Somente a Comgás, maior distribuidora de gás natural do Brasil, deverá ampliar sua rede de distribuição este ano em cerca de 400 quilômetros para atender novos mercados. Novas cidades passarão a contar com redes de distribuição de gás natural canalizado e nos municípios que já contam com o serviço são previstas ampliações. Empresas de consultoria sinalizam que os bons ventos que sopram à favor da economia deverão resultar em um aumento de 5,5% no consumo de energia elétrica, de 23% na demanda por gás natural e 4,8% no consumo de petróleo. Nos últimos anos, a distribuição de gás cresceu 14% ao ano, ante 2,5% do petróleo. Lentamente, o Brasil, que tem tão pouca tradição no uso do gás natural, começa a galgar novas posições e ter novas ambições com esse energético. Pode parecer muito um aumento superior a 20% no consumo de um energético, mas é sempre importante analisar em que base ocorrerá esse crescimento. O último Balanço Energético Nacional (BEN), de 2003, relativo a 2002, informa que a participação do gás natural na matriz energética brasileira é de 5,6%. Um índice em crescimento, pois em 70 era nada: 0,1% da matriz energética; em 80 era de 0,8%; em 90 2,4% e em 2000: 4,1%. O crescimento ocorre em cima de uma base bastante pequena, principalmente se levarmos em consideração que a média mundial da participação do gás natural na matriz energética é de 20%. Ainda temos muito para crescer. A história do gás canalizado no país começou na segunda metade do século 19, com a finalidade de iluminação pública e pouco se desenvolveu, principalmente devido à inexistência de capital para investimento. O gás natural começou a ser usado modestamente no país por volta de 1940, com as descobertas de óleo e gás na Bahia. Somente na década de 80 esse mercado teve um impulso maior com a exploração da Bacia de Campos. Mas a grande mola propulsora dessa indústria foi sem dúvida o Gasoduto Bolívia-Brasil, que entrou em operação em 1999, garantindo uma significativa oferta de gás natural.
Produto é competitivo, mas crescimento desse mercado depende de sua inserção na política estratégica de energia
A chegada de novos investimentos, com a privatização de algumas empresas, e a firme determinação política de ampliar a participação do gás natural na matriz energética brasileira deram novo impulso a este mercado e lentamente alguns entraves estão sendo removidos. O produto é competitivo frente ao óleo combustível, seu principal competidor no mercado industrial. Este segmento é o mais representativo, com cerca de 70% das vendas totais. A diferença de preço entre o GN nacional não representa mais um risco. Mas ainda há muito a ser feito. A infra-estrutura ainda é bastante pequena, apesar das ampliações de rede ocorridas recentemente. Na Comgás, por exemplo, a rede foi ampliada em 1.300 km nos últimos 5 anos, passando de 2.400 km em 1999 para 3.700 no final de 2004. Mas para um país com as dimensões continentais do Brasil as redes existentes são poucas. Entre redes de transmissão e distribuição, o Brasil tem cerca de 17 mil km de tubos assentados, o que limita a chegada do combustível a novos mercados. Somente em redes de transporte, o Brasil tem 8 mil km, enquanto isso, a França tem 34 mil km, o Canadá 100 mil km e os Estados Unidos 450 mil km. Há boas perspectivas para o crescimento do mercado do gás natural no Brasil deste que alguns entraves sejam removidos. Mais que isso, é necessário que o crescimento do mercado do gás natural seja inserido realmente na política estratégica para o setor de energia do país para garantir o crescimento deste combustível na matriz energética brasileira. Ao mesmo tempo em que existe um enorme potencial da indústria do gás na geração de empregos, na criação de novos negócios e no aumento da competitividade nacional, existem ainda falhas no marco regulatório. A boa notícia é que o governo já deu sinais que pretende aprovar uma lei específica para o gás natural, mas por enquanto são boas perspectivas e nada foi feito de efetivo até agora. A superação desse entrave é fundamental para superar os desafios na indústria do gás no Brasil e para promover os benefícios ainda mais amplos. Falta perspectiva estratégica de longo prazo e uma visão sobre a sustentabilidade do mercado de gás natural no Brasil. É preciso que o país entre em uma nova era de energia sustentável, capacitando a construção de um futuro próspero, equilibrado, ambientalmente sadio e politicamente seguro.