Título: Mercosul agora é prioridade para o Uruguai
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2005, Brasil, p. A3

O novo governo do Uruguai começa a dar sinais claros de uma maior aproximação com o Brasil na área externa, diretriz que poderá resultar no fortalecimento do Mercosul e em um alinhamento não automático do país com os Estados Unidos. Dois movimentos indicam esta postura: a formalização do pedido de adesão do Uruguai ao G-20 e o questionamento do acordo sobre investimentos assinado, no fim de 2004, com os Estados Unidos, e que está parado no Congresso. "Queremos ter boas relações com os Estados Unidos, mas o Uruguai já tem proteção de lei de investimentos que protege os investidores", disse ao Valor, por telefone, desde Montevidéu, o ministro uruguaio das Relações Exteriores, Reinaldo Gargano. Ele afirmou que o partido pelo qual Tabaré Vázquez foi eleito, a coalizão de esquerda Frente Ampla, discorda de cláusula do acordo que permite que o investidor escolha o tribunal para dirimir conflitos. Questionado se o Executivo irá trabalhar com sua base de apoio no Congresso para impedir a aprovação do projeto, Gargano esquivou-se: "Vamos ver. Precisamos conhecer a fundo o acordo, porque acredito que nem os que o assinaram sabem o que ele contém." A crítica é dirigida ao governo anterior, do presidente Jorge Batlle, que privilegiou a relação comercial direta com os Estados Unidos mantendo uma posição dúbia em relação ao Mercosul. "O Mercosul passa a ser uma prioridade dentro dos cinco eixos definidos no nosso plano de governo", disse Gargano, um senador que preside o Partido Socialista do Uruguai, do qual é filiado há 50 anos. O projeto do Mercosul se insere na prioridade dada pelo novo governo uruguaio à integração regional. Em 1º de abril, o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, irá se reunir, em Brasília, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Será a primeira viagem oficial de Vázquez ao exterior depois da sua posse, em 1º de março. Do encontro, deverá resultar um comunicando conjunto marcando a pauta de trabalho a ser seguida pelos dois países nos próximos meses, previu Gargano. Uma das prioridades do Uruguai, segundo ele, é reforçar a integração energética com o Brasil, permitindo a exportação direta de energia desde território brasileiro em caso de necessidade, como ocorre agora com a seca. A interconexão hoje existente não é suficiente, destacou Gargano. O país também tem interesse em ampliar o comércio bilateral, cuja balança tem pendido para um lado ou para o outro, com déficit ou superávit, desde meados dos anos 90. Em 2004, o Brasil exportou US$ 667 milhões para o Uruguai e importou US$ 523 milhões, totalizando uma corrente de comércio de US$ 1,2 bilhão, bem abaixo do recorde de 1998, de quase US$ 1,9 bilhão. Gargano disse que é objetivo de seu país é aumentar as exportações para Brasil e Argentina, os dois principais parceiros comerciais, mas sem esquecer de expandir as vendas para o resto da América do Sul e para os Estados Unidos, que só de carne bovina importaram do Uruguai cerca de US$ 400 milhões no ano passado, lembrou o chanceler. Gargano também defende a criação de uma comissão para antecipar soluções ante eventuais conflitos comerciais entre os dois países, à semelhança da Comissão de Monitoramento Brasil-Argentina. Gargano reiterou, no entanto, que o Uruguai não abrirá mão da candidatura de Carlos Pérez del Castillo à direção-geral da OMC, cargo também disputado pelo brasileiro Luis Felipe de Seixas Corrêa. "Não vamos desistir da candidatura de Castillo, mesmo sabendo de todos os problemas que o Brasil coloca nessa candidatura, mas entendo que a discussão não vai friccionar as relações entre os dois países", avaliou Gargano. Em um sinal da disposição de cooperação com o Brasil nas negociações multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC), o ministro disse que o Uruguai quer somar-se ao G-20 ma reunião ministerial do grupo marcada para os dias 18 e 19 de março, em Nova Deli, na Índia. O encontro servirá de preparação do G-20 para as negociações da atual rodada de negociações comerciais da OMC até o fim do ano. Em outra frente, o Uruguai estará debruçado sobre o tema agrícola junto aos demais países do Grupo de Cairns em reunião prevista para 1º de abril, em Cartagena das Índias, na Colômbia, informou Gargano.