Título: Vice dá sinais de cansaço e deixa ministério à deriva
Autor: Cristiano Romero e Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2005, Política, p. A10
Quatro meses após assumir o Ministério da Defesa, surpreendendo até os petistas mais bem informados do governo, o vice-presidente José Alencar sinalizou a interlocutores que está cansado e "enjoou" do cargo. Publicamente, ele só declarou na semana passada que "está ministro" e não tem "perfil adequado" para a função. De forma reservada, já havia adotado tal discurso e teria feito essa auto-avaliação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também é crescente e cada vez mais clara a insatisfação de funcionários e colaboradores da Defesa com o esvaziamento da Pasta. Desde a chegada de Alencar, secretários e diretores de departamento que antes transitavam com liberdade pelo sexto andar do ministério agora precisam pedir audiência para serem recebidos pelo chefe. Alguns sequer o conhecem. A maior parte do tempo ele tem passado nas funções de vice-presidente, no Palácio do Planalto, ou em reuniões de cunho político. Assessores garantem que o sonho de Alencar é tornar-se o próximo governador de Minas Gerais. O vice tem dado liberdade de atuação aos três braços das Forças Armadas. Enquanto isso, provoca descontentamento dentro da Defesa, uma pasta ainda na puberdade, que perdeu as atribuições de mediadora dos comandos militares. Co-responsável por programas de pesquisa nuclear e pela campanha lançada pelo governo brasileiro em favor do Haiti, a Defesa pós-Viegas transferiu boa parte dos seus trabalhos a outros ministérios, como o de Ciência e Tecnologia e o Relações Exteriores. A paralisia é atribuída em grande parte ao braço-direito de Alencar desde os tempos de Coteminas, o chefe de gabinete da Vice-Presidência da República, Adriano Silva, que o acompanhou também no Senado. Oficialmente sem cargo na Defesa, o auxiliar assumiu poderes sem precedentes no ministério. É o único com acesso à agenda de Alencar, centraliza os contatos com a imprensa e veta a entrada de generais, brigadeiros e almirantes no gabinete do chefe. Pouco afeito às práticas e códigos militares, além de tempo escasso para despachar com assessores, o vice-presidente cometeu uma série de pequenos deslizes que chegaram a irritar oficiais de alta patente. Já deixou o comandante do Exército mais de uma hora esperando por uma reunião na sua ante-sala. Demorou mais de 24 horas para retornar uma ligação do comandante da Marinha. E passou por cima do então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Rômulo Bini, ao ordenar diretamente a ajuda do Exército no combate ao crime organizado no Espírito Santo. O comandante da força de paz da ONU no Haiti, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, esperou em vão uma mensagem do ministro da Defesa às tropas brasileiras no Natal. Para qualquer cidadão desacostumado com os costumes militares, como Alencar, a importância de cumprimentos natalinos é pouco evidente. Mas os militares vêem esse tipo de ação como essencial para elevar o moral da tropa e lembram que não é à toa que o secretário americano de Defesa, Donald Rumsfeld, surpreendeu mais de uma vez os soldados no Iraque com visitas-relâmpago. A ausência de uma mensagem esfriou a relação de Alencar com o comandante no Haiti. O cansaço do vice-presidente com as suas atividades na Defesa está relacionado com a falta de uma solução para a crise da Varig. Quando chegou ao ministério, Alencar encontrou pronta uma medida provisória que determinava intervenção na companhia aérea e era fruto de consenso com a Casa Civil e a equipe econômica. Não gostou do que viu, afastou assessores e começou a desenhar uma "solução empresarial" sem a ajuda de um único funcionário. Pensou em uma reestruturação que envolvesse a troca de dívidas do governo por ações da Varig. Depois, começou a lutar por uma saída baseada na Lei de Falências e no "encontro de contas". A área jurídica do governo e a Fazenda vetaram as duas possibilidades.