Título: PP é o maior nó da reforma ministerial
Autor: Cristiano Romero e Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2005, Política, p. A10

As negociações para a definição das mudanças no ministério do presidente Lula avançaram nos últimos dois dias. Na noite de domingo, em reunião que durou cinco horas na Granja do Torto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cedeu à pressão partidária e prometeu devolver ao PT a Coordenação Política, hoje sob o comando do ministro Aldo Rebelo, do PCdoB. O presidente, que deve anunciar as mudanças amanhã ou depois, ainda não definiu o substituto de Aldo. Na manhã de ontem, ao chegar ao Palácio do Planalto, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, deu indicações de que não será ele o escolhido. "Estou feliz porque vou ficar quieto e sossegado no meu lugar", disse Dirceu, sugerindo que permanecerá cuidando do gerenciamento administrativo do governo. Lula resiste a deixar nas mãos de Dirceu a coordenação política, a articulação com os partidos e mais a gerência do governo. O outro nome cotado para a Coordenação Política seria o do deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Uma dificuldade para a sua nomeação é o fato de que João Paulo é pré-candidato ao governo de São Paulo em 2006 e não abre mão do pleito. Na reunião de domingo, porém, essa situação teria sido superada. "As condições mudaram. São Paulo não entrou no jogo", informou um petista. Apesar disso, há fortes resistências à nomeação de João Paulo. Uma delas é liderada por um dos participantes da reunião de domingo, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), ele também um pré-candidato ao governo paulista e o predileto de Lula para o pleito do próximo ano. Além de Mercadante e Dirceu, participaram da reunião na Granja do Torto o presidente do PT, José Genoino, e os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Luiz Gushiken (Comunicação do Governo). Ficou acertado no encontro que, com a entrega da Coordenação Política ao PT, será devolvido à função o controle dos cargos federais. Em janeiro do ano passado, quando foi criada a coordenação e Aldo Rebelo assumiu o posto, os cargos permaneceram sob a gestão da Casa Civil, o que dificultou e enfraqueceu a atuação do ministro. Apesar da forte reação do PT, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, será convidado para assumir a Pasta da Saúde. O convite formal deverá acontecer hoje. Na reunião de domingo, definiu-se também que os ministérios do Planejamento e das Cidades ficarão nas mãos do PT. No caso do Planejamento, um grupo de petistas trabalha para que o deputado Jorge Bittar (PT-RJ) seja o escolhido. Seria uma forma de dar um ministério ao Rio de Janeiro, estado onde Lula ganhou a eleição com 80% dos votos e que está praticamente sem representação no ministério. O ministro Palocci trabalha discretamente para que o indicado seja o deputado Paulo Bernardo (PT-PR). Corre por fora o atual ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini. Berzoini pode deixar o Trabalho para ceder lugar a Aldo Rebelo. Estava prevista para ontem uma conversa de Lula com Aldo, mas até o fechamento desta edição ela não havia acontecido. A demora de Lula já atrapalha o funcionamento do Planalto: a reunião de coordenação da segunda-feira foi cancelada ontem. Seria constrangedor reunir na mesma sala Aldo e os ministros petistas que pediram sua cabeça na reunião do Torto. Definida a situação do PT, que, ao contrário do que vêm apregoando os petistas, sairá fortalecido da reforma, o nó a desatar agora é do ministério do PP. O governo planejava oferecer a Pasta dos Esportes, hoje comandada por Agnelo Queiroz, do PCdoB, mas o PP, fortalecido pela conquista da presidência da Câmara, mandou avisar que não tem interesse num ministério fraco. O governo analisava ontem a possibilidade de propor, então, o Ministério das Comunicações ou, em último caso, o da Integração Nacional. As conversas formais com o PP devem acontecer hoje. Ontem, o líder do partido na Câmara, José Janene (PR), confirmou que a sigla ainda não tratou do assunto com o presidente Lula. "O PP não está fazendo pressões, não está exigindo nada, não apresentou nomes nem pediu nada", disse o líder, acrescentando que não haverá tempo para definir "tudo" até amanhã. Segundo ele, o partido ainda não escolheu quem indicará. "Como não sabemos o cargo, não temos o nome. O que há de certo é que a indicação é do partido, não do Planalto." A situação do PP seria mais fácil de resolver se a bancada mantivesse a indicação do antigo líder Pedro Henry (PR), nome no qual o Planalto confia. Henry se enfraqueceu ao deixar a função de líder da bancada e manter até o fim o apoio à candidatura oficial do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), afinal derrotado por um integrante de seu próprio partido, o deputado Severino Cavalcanti (PE). Agora, não há consenso na bancada sobre outro nome e o governo teme entregar um ministério de porte, como o da Integração ou mesmo o das Comunicações, ao partido. Somente depois de acertar com o PP o Palácio do Planalto poderá reacomodar o PMDB. Se o PP ficar com as Comunicações, o ministro Eunício Oliveira poderá ser deslocado para a Integração Nacional. Nesse cenário, o governo terá que definir uma Pasta para a senadora Roseana Sarney (PFL-MA), que ganhará um posto dentro da cota do senador José Sarney (PMDB-AP). Do acerto com o PMDB, o que já está certo é ida do senador Romero Jucá (RR) para a Previdência Social, em substituição a Amir Lando. (Colaborou Cristiane Agostine, de São Paulo)