Título: Scania salva operação e reconquista a liderança
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2005, Empresas &, p. B1

Na indústria automobilística, quando as coisas vão mal, é costume enxugar a operação e o quadro funcional. Na Scania, fabricante de caminhões pesados, a opção para recuperar a rentabilidade há três anos, foi aumentar os preços em 25% de uma só vez, apesar da inevitável perda de uma liderança de 13 anos consecutivos. Em um ano, os prejuízos foram estancados e no ano passado, a montadora recuperou sua histórica liderança no segmento de pesados. "Hoje eu posso dizer que isso salvou a empresa", revela o presidente da Scania no Brasil e na América Latina, Hans-Christer Holgersson. Homem de finanças, Holgersson foi chamado para o cargo na véspera do reajuste de preços, em janeiro de 2001. Ele conta que participou da elaboração da decisão, que levou sete meses para ser preparada. Quando o executivo sueco tomou posse, em abril de 2002, as vendas já haviam despencado, tomando um rumo, que levou a empresa a cair para o terceiro lugar naquele ano. "Se não tivéssemos reajustado os preços, inevitavelmente teríamos que tomar medidas drásticas, como demissões", explica o executivo. Demitir em massa numa fábrica instalada no berço do movimento sindical fatalmente provocaria manifestações. Foi na fábrica da Scania, em São Bernardo do Campo (SP) onde surgiu a primeira comissão de fábrica do país. As conseqüências do encolhimento da operação brasileira não parariam nas demissões. Holgersson conta que sem uma medida drástica para recuperar a rentabilidade naquele momento, a filial perderia todas as oportunidades de transferência tecnológica da matriz. "Com isso, teríamos de reduzir as operações passo a passo", destaca. Naquele momento, os prejuízos de três anos somavam US$ 300 milhões em toda a América Latina, região abastecida pelo Brasil. A maxidesavalorização cambial havia corroído as margens de uma empresa com boa parte dos custos atrelada ao dólar. O preço do caminhão Scania em 2001 equivalia a dois terços do valor em 1999. A operação na América Latina saiu de um prejuízo de US$ 62,5 milhões em 2001 para o lucro de US$ 4 milhões no terceiro trimestre de 2002. A partir daí, apesar da reversão, favorável, a Scania deixou de divulgar os resultados financeiros na América Latina. Como as exportações são faturadas pela matriz, os resultados são agora todos contabilizados na Suécia. Mas Holgresson diz que a operação foi lucrativa em 2004. Nesse tempo, a empresa, que praticamente só vendia caminhões e ônibus no mercado doméstico, passou a ter na exportação a maior sustentação dos negócios. Hoje 70% do que é produzido em São Bernardo segue para outros mercados. Um dos maiores é a Coréia do Sul. A Turquia também ganhou destaque no ano passado. Segundo Holgresson, essa nova vocação para atender a outros países veio da transferência de novas tecnologias da matriz, conseqüência da recuperação da rentabilidade. Agora, a empresa, que há três anos trabalhava com apenas 30% da capacidade, se prepara para investimentos que elevarão a capacidade produtiva. O reajuste de 25% três anos atrás fez a participação da marca sueca no mercado brasileiro de caminhões pesados imediatamente cair de 32% para 18%. Mercedes-Benz e Volvo, respectivamente, passaram à frente. No ano passado, a montadora voltou ao primeiro lugar com 24,18% do mercado. Mas, desta vez, a concorrência está mais próxima e bem mais forte. "Isso demonstra que teríamos perdido mercado mesmo que não tivéssemos elevado os preços", afirma Holgresson. Mas a empresa não parou por aí. Mais aumentos vieram por conta de novas altas do dólar. Segundo Holgersson, nos três últimos anos, os preços dos caminhões Scania subiram 60%. Hoje, ao contrário da maioria dos executivos, Holgresson defende a política cambial do governo. "É natural que um país que funciona bem como o Brasil, se comparado com outros anos, tenha uma moeda mais forte", afirma.