Título: Consultores vêem pressão temporária na alta da divisa
Autor: Flavia Lima
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2005, EU &, p. D1

A atuação do Banco Central (BC) ontem, comprando a moeda americana quando ela já estava na máxima do dia, deixou o mercado confuso com relação à estratégia do governo. A compra fez o mercado puxar a moeda ainda mais, para R$ 2,77, valor que recuou depois para R$ 2,75 no fechamento. "O BC informou ao mercado que comprou porque havia fluxo positivo de dólares, mas então por que não esperou o preço cair antes?", pergunta Tereza Fernandez Dias da Silva, da MB & Associados. Para ela, o que o BC fez foi despertar dúvidas no mercado sobre os objetivos das intervenções. Depois de deixar a moeda "escorregar" até R$ 2,60, agora ele estaria puxando para cima a cotação? "Se ele não quer puxar, está dando um sinal torto", afirma. "E, na dúvida, quem está devedor em dólar procura se zerar rapidamente comprando moeda e realimenta o processo de alta." Tereza acredita, porém, que o fluxo vai ser determinante para a taxa de câmbio, apesar de as atuações do BC poderem puxar as cotações por determinados períodos. Ela espera que, após esses períodos, o dólar tenderia a se estabilizar em um nível mais baixo, em torno de R$ 2,70. "Mas ainda é preciso confirmar se o BC vai realmente adotar uma política de tentar puxar o dólar", afirma. A manutenção de uma taxa de juros elevada também é um fator que favorece a entrada de dólares e a queda da moeda americana. A MB trabalha com mais uma alta neste mês de meio ponto percentual, mas já há algumas instituições prevendo mais uma alta de 0,25 ponto no mês que vem por conta da alta das commodities. A MB & Associados estima o dólar no final do ano a R$ 2,82 e R$ 2,70 na média de 2005. O mercado de dólar está mais tenso por conta da alta do petróleo e dos juros dos papéis de dez anos do Tesouro americano e pelas mudanças nas regras cambiais locais, afirma Roberto Padovani, da Tendências Consultoria. Mas olhando o cenário externo, especialmente a economia americana, ele não vê razão para uma alta forte da moeda no longo prazo. "Este seria até um momento de vender", diz. O economista acha que a tendência do real é se desvalorizar no médio prazo, com a alta dos juros nos Estados Unidos e a queda das taxas no Brasil. Mas esse movimento não seria brusco e nem tão acentuado, tanto que a Tendências trabalha com um dólar no final do ano a R$ 2,75. Até lá, porém, a expectativa é de momentos de maior volatilidade por conta de eventuais problemas no mercado internacional e local." Agora o dólar aqui está muito pressionado, mas não vejo motivos para rever as apostas", diz Padovani. Ele acredita que até o final do mês o câmbio deve operar num patamar mais alto. Para os analistas, a possibilidade de que a dívida interna indexada ao dólar seja zerada nos próximos meses não prejudica os fundos cambiais. Mário Barbosa Filho, da Argumento, reconhece que os fundos perderiam uma fonte de lastro, mas ela poderia ser substituída sem problemas por operações no mercado futuro. Para Flávio Serrano, da Ágora, a disposição do governo em diminuir a dívida cambial não quer dizer reduzi-la a zero. Ele lembra que hoje a participação dos títulos e operações de swap cambial na dívida mobiliária é de 7,5%, o que não causaria preocupações. (Colaborou F.L.)