Título: A gangorra do dólar
Autor: Flavia Lima
Fonte: Valor Econômico, 15/03/2005, EU &, p. D1

A expressiva alta do dólar em março dá novo fôlego aos fundos referenciados à moeda americana em 2005. Apenas ontem, o dólar avançou 1,18%, fechando o dia valendo R$ 2,75 - o maior nível desde 16 de dezembro de 2004. Segundo o site Fortuna, as carteiras cambiais registram rentabilidade média de 2,3% no ano, até o dia 10, próximas da alta de 2,9% do referencial em igual período. Em março, a valorização desses fundos chega a 4,5% - isso sem incorporar os fortes ganhos de ontem. O desempenho é superior à alta de cerca de 1% dos fundos de ações e de 0,5% das carteiras DI no período. O cenário favorável pode encorajar investidores a voltar a aplicar por ativos indexados à moeda estrangeira. Profissionais do mercado ressaltam, porém, que as antigas recomendações com relação às aplicações cambiais continuam valendo: elas devem ser procuradas apenas por quem tem dívidas ou outros compromissos dolarizados e como forma de diversificação. "Tentativas de ganhar com a alta volatilidade da moeda no curtíssimo prazo é coisa para especialistas", afirma Mário Alves Barbosa Filho, sócio da consultoria Argumento. Segundo ele, a forte atuação do governo no mercado de câmbio nas últimas semanas já prenunciava a valorização do dólar sobre o real, mas ele ressalta que apenas profissionais com experiência e "bom timing" capturaram a alta. Para o consultor, ainda que o dólar encontre espaço para subir um pouco mais, a alta não seria suficiente para ofuscar os ganhos da renda fixa. "Salvo uma crise externa de grandes proporções, nada é mais atrativo do que os juros internos", diz. Segundo Barbosa Filho, para competir com a taxa de juros de um ano em torno de 18,5%, o dólar teria de estar próximo de R$ 3,25 no início de 2006, o que avalia ser bastante improvável. O sócio da GAP Asset Management, Emanuel Silva, reprova o investimento em fundos cambiais, a menos que a aplicação seja usada como proteção (hedge). O executivo da GAP diz que o que ocorreu com o mercado de câmbio nos últimos dias foram "ajustes de curtíssimo prazo". Mas a posição privilegiada do país com relação às suas contas externas e a continuidade do fluxo de recursos estrangeiros devem manter a divisa americana sob controle. Segundo o executivo, sob um discurso de recomposição de reservas, o Banco Central foi o grande responsável pela valorização da moeda americana. "O efeito das compras do BC somado à alta das taxas de juros americanas fizeram a moeda atingir os R$ 2,75 ontem", afirma Silva, em referência aos títulos americanos de dez anos, que ontem chegaram a ser cotados a 4,57% ao ano, encerrando o dia a 4,5% ao ano. Flávio Serrano, economista da Ágora Sênior, também acredita que não há uma expectativa de depreciação grande do real. O executivo, que projeta o dólar entre R$ 2,80 e R$ 2,85 até o final de 2005, também avalia que a oportunidade de ganhos com a moeda americana continuará se dando no curto prazo. "O negócio é acertar a mão em curtos períodos para ter um retorno mensal acima do CDI", diz.