Título: Varejo intensifica promoções, mesmo com o juro em alta
Autor: Cláudia Facchini e Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Brasil, p. A7
Num ambiente de forte concorrência, o varejo continua a apostar em promoções para fisgar o consumidor e manter um ritmo forte de crescimento das vendas em 2005, apesar da alta dos juros iniciada em setembro. As várias parcerias firmadas nos últimos meses entre as grandes varejistas e os bancos - principalmente o Unibanco, Itaú e Bradesco - injetaram novo fôlego no comércio e acirraram a competição. Como os bancos conseguem captar recursos a um custo mais baixo, grandes varejistas também conseguem manter taxas mais agressivas. A guerra do crédito já chegou às compras de supermercados, que normalmente não são financiadas. O Pão de Açúcar começou a oferecer, para os clientes do seu programa de relacionamento Mais, o parcelamento das compras em três vezes para todas as bandeiras de cartão de crédito. A promoção vale para compras acima de R$ 150 e é uma estratégia de combate para ganhar mercado neste mês de Páscoa, a melhor data para o supermercados no ano depois do Natal. A Colombo, uma rede de eletrodomésticos, intensificou o crédito flexível, que permite aos consumidores planejar o pagamento de parcelas com valores diferentes a cada mês, conforme o seu orçamento. A varejista também manteve os juros e os planos promocionais oferecidos durante o Natal "Não tenho dúvidas de que oferta de crédito e competição entre os bancos só vai aumentar daqui para frente", afirma Alessandro Galvão, da consultoria da Bottom Line, especializada em cartão de crédito. Para ele, os bancos preparam-se para oferecer cada vez mais taxas promocionais no crédito direto ao consumidor e nas compras parceladas. O próximo passo será a segmentação das taxas por grupos de clientes. A prova disso é que a oferta de crédito não se retraiu, o que tem levado as indústrias e as varejistas a prever um ano positivo, mesmo com freio imposto pelo banco Central. Segundo o Pão de Açúcar, a parceria com o Itaú já permitiu à companhia oferecer taxas mais baixas. As varejistas afirmam que as vendas a crédito voltaram a ter um bom desempenho em março, o que trouxe mais otimismo ao setor. Em fevereiro, a demanda foi desapontadora. A Casas Bahia mantém uma série de promoções ao mesmo tempo, que valem para determinadas linhas de produto. Os móveis, por exemplo, podem ser comprados em até 15 vezes sem juros, enquanto alguns produtos como aparelhos de som, televisões e DVDs podem ser comprados 11 prestações, com juros de 1% ao mês. O prazo máximo das ofertas, por sua vez, aumentou. Passou de 12 meses em outubro para os atuais 18 meses. O vice-presidente das Casas Bahia, Michael Klein, afirma que, num cenário em que não há incremento da renda, é necessário manter o valor da prestação, para que o consumidor possa pagar. A Lojas Cem não mudou suas promoções desde que o BC começou a elevar os juros. O supervisor-geral da Lojas Cem, Valdemir Colleone, diz que a forte concorrência leva a empresa a manter as condições de crédito, apesar do aumento da Selic. Empresa que se financia com recursos próprios, a Lojas Cem vende em até quatro vezes sem juros, mas o prazo médio dos financiamentos é de seis meses. Nessas operações, os juros são de 2% ao mês. A Lojas Cem vende em até 20 vezes, com taxa mensal de 4,2%. Colleone vê um 2005 positivo para o comércio. Em janeiro, suas vendas cresceram 16% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O ritmo de expansão desacelerou para 6% em fevereiro, mas voltou a crescer em março. Até o momento, o crescimento é de 15% em comparação com março de 2004. O economista Emílio Alfieri, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), também vê um começo de ano favorável. Em janeiro, as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) cresceram 6,8% ante o mesmo mês de 2004 e em fevereiro, 6,6%. A entidade divulga hoje o resultado da primeira quinzena de março, e ele acredita que os números devem mostrar um desempenho não muito diferente do registrado nos dois primeiros meses do ano. O que o preocupa é o rumo dos juros básicos. Para ele, se o BC continuar a elevar a Selic, o comércio vai sofrer. Até o momento, isso não ocorreu. Ricardo Alberto Cons, diretor da divisão de eletroportáteis da Electrolux, prevê um crescimento de dois dígitos nas vendas, embora acredite ser difícil repetir o aumento de 30% em 2004. "O varejo não restringiu a oferta de crédito, o que é positivo."