Título: Em risco a obra pronta da reeleição
Autor: Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Política, p. A8

A reforma ministerial, feita assim, de uma maneira confusa mas que no fim resultará em mero remanejamento de nomes dentro dos partidos, tendo por objetivo apenas fortalecer e instrumentalizar cada uma das forças em que se divide o PT (sim, a reforma em curso é isto), não resolverá os problemas de gestão do governo Lula, não será garantia incontestável da reeleição nem apontará os rumos das alianças estaduais que renovarão o palanque do presidente. A reforma ministerial está sendo feita em função do PT, em nome do PT, de suas lutas internas e disputas de poder, na medição milimétrica de instrumentos entregues a cada um de seus filiados em posição de mando. É José Dirceu versus Palocci, Mercadante versus João Paulo, Marta contra todos, a disputa de São Paulo chegando a Brasília e subindo a rampa com antecedência prematura, enquanto os PTs de Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas nem podem assistir direito ao espetáculo imbuídos que estão da necessidade de preservarem-se em suas arenas de luta. Para os aliados, vai sobrando, como definiu ontem um deles esforçando-se para manter o humor, "a pequena zona livre de aftosa". A difundida idéia de que a reforma seria supostamente dirigida à conquista do PMDB desintegrou-se. Com meio ministro a mais, se tanto, sem poder entregar os votos das bancadas da Câmara e do Senado nem o seu tempo de televisão na propaganda de 2006, o PMDB inundou a praça de cheques sem fundo. Para tudo depende de uma unidade que nunca existiu e nem está próxima. Que a reforma não serviria ao choque de gestão o governo já até admitira. Mas insistia no argumento de que desejava, com ela, consolidar a aliança para fazer a travessia da reeleição. Não é o que as evidências, ainda não oficialmente registradas, demonstram. O PT foi amplamente vitorioso em 2002, quando fez uma campanha forte, de oposição. Depois disso, porém, perdeu os dois grandes embates políticos em que se envolveu. Construiu sua derrota nas eleições municipais, notadamente em São Paulo, onde a fuga das alianças e a disputa interna de poder trituraram suas chances. E preparou também a derrota na eleição para a presidência da Câmara, ao novamente fugir dos aliados depois de para eles viver acenando de longe. Sem uma mudança radical de sua ação política, o partido poderá agora, como próximo passo, dedicar-se a desconstruir também a obra pronta da reeleição. As pesquisas de opinião dão ao PT segurança para crer que ninguém tira a reeleição do presidente Lula, com ou sem aliados. Hoje, nas condições atuais, com o quadro de candidaturas disponíveis, isto é realmente uma certeza. O que se admite discutir é se a vitória será no primeiro ou no segundo turno. A população, lembra Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, não está ligada em política, não associa Lula ao desempenho do ministério e não imputa ao presidente culpa pela ineficiência do governo. Falta, porém, ainda um ano e meio de mandato a cumprir. A situação do presidente pode melhorar, ficar como está ou piorar. Para piorar, precisam acontecer desgraças imensas, como um grande escândalo interno, ou uma brutal crise mundial, pondera Montenegro. Mas o PT não crê em bruxas.

O governo é do PT, que tudo quer e tudo ganha

Discurso, só, não faz verão Apesar do sucesso nas pesquisas, a inação do governo, com tão pouco tempo à frente para apresentar resultados que sirvam à campanha de 2006, está incomodando até os aliados. Não há dúvidas sobre a solidez do apoio e solidariedade que o senador José Sarney, ex-presidente da República e do Senado, e José Genoino, ex-deputado e presidente do PT, concedem ao governo Lula. Por insuspeitos, tomemos emprestadas análises que os dois políticos fizeram, no último fim de semana, sobre o desempenho do governo Lula. Em entrevista à "Folha de S.Paulo", Sarney, convidado a apontar um erro do governo Lula nesses dois anos de gestão, foi elegante, como sempre, porém claríssimo: "Eu acho que ele não tem tido muita sorte em relação aos problemas de distribuição de renda e também do emprego. Esses são os dois pontos mais fracos que nós podemos encontrar no governo". O ex-presidente reforça seu raciocínio citando que a taxa de desemprego não baixou significativamente e que "continuamos no patamar quase paralisado de distribuição de renda". Tendo como tema as agendas do governo e do Congresso, que considera fundamentais para a garantia da governabilidade, José Genoino clama, em artigo publicado em "O Estado de S.Paulo", por uma definição concreta, em medidas e ações, das prioridades muitas vezes enunciadas. "Um governo sem agenda e sem capacidade de executá-la vai depender da sorte e estará freqüentemente suscetível a crises nas relações com o sistema político e com a sociedade". Segundo Genoíno, as prioridades do governo conduzido por seu partido já foram definidas, falta agora detalhá-las em ações concretas. Exigem-se iniciativas para consolidar o crescimento econômico e a geração de emprego de forma prioritária, assinala o presidente do partido do governo. "É necessário dar exeqüibilidade à política industrial, aos investimentos em infra-estrutura, às reformas micro-econômicas e a medidas que consolidem a poupança e o crédito", diz. Em outro conjunto de necessidades e premências, a análise crítica de Genoino sobre a gestão Lula mostra que tudo está ainda por fazer: " As prioridades nos eixos de educação, saúde, reforma agrária, combate à desigualdade social, ações de desenvolvimento regional e integração nacional, segurança pública, eficiência na gestão e iniciativas de reformas democráticas também precisam ser detalhadas em ações concretas". Manifestações mais eloqüentes do que estas o governo não vai encontrar. A menos que queira continuar de olhos vendados e ouvidos tapados para não ser persuadido.