Título: Empresários temem "república sindical"
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Política, p. A9
A cúpula do empresariado nacional concluiu, afinal, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não esqueceu suas origens sindicais. Em um ato promovido pela CNI e pela Fiesp em São Paulo, a proposta de reforma sindical do governo foi retratada como uma verdadeira agressão ao lado patronal do conflito entre capital e trabalho. "Este poder para os sindicatos não existe em lugar nenhum, é inaceitável", afirmou o maior empresário do setor siderúrgico no país, Jorge Gerdau Johannpeter, esboçando uma linha de ação. "No meu setor, quem fez concessões erradas, fechou as portas. É melhor sofrermos uma derrota, mas precisamos trabalhar para termos um operário valorizado, e não politizado", disse. "Estão querendo instalar a república sindicalista no Brasil", protestou o presidente do Sindipeças, Paulo Butori. Para os empresários, dois aspectos da reforma fazem a balança pender contra eles: a obrigatoriedade de representação sindical em empresas com mais de 30 empregados e a possibilidade da entidade sindical fazer a substituição processual, ganhando mandato para acionar empresas mesmo sem uma delegação específica dos trabalhadores de sua base para isto. O quadro para o meio empresarial foi descrito como ainda mais preocupante pela decisão do governo federal de não encaminhar de forma conjunta uma reforma das leis trabalhistas. Fazer esta distinção foi a orientação de Lula desde o princípio: na estratégia do governo federal, uma reforma trabalhista que fizesse a negociação prevalecer sobre o que a lei determina só seria admissível com o fortalecimento das centrais sindicais. O modelo de inspiração foi o da Alemanha, em que poucas centrais dão as cartas nas negociações com o meio empresarial. Tratar a reforma sindical de forma separada da trabalhista era tudo que as entidades empresariais menos queriam. "O poder ampliado dos sindicatos trará a exacerbação dos conflitos na relação capital/trabalho. Já temos problemas demais na área tributária e macroeconômica. Não precisamos de mais complicações", disse o presidente da CNI e deputado federal, Armando Monteiro Neto (PTB-PE). A reforma sindical foi discutida em um fórum organizado pelo ministério do Trabalho, o Fórum Nacional do Trabalho, mas o meio patronal afirma que o governo federal ficou longe da isenção. "Em todo o processo de negociação, o governo decidiu quase sempre em desacordo com as teses das entidades empresariais", disse Monteiro Neto. "Em síntese, o projeto retira poder do sistema patronal e o transfere para o sistema profissional", afirmou o diretor da Fiesp, Roberto Ferraiuolo. Unânimes na condenação à reforma, os empresários mostraram divergência em relação ao que fazer para barrar o avanço da proposta. Presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Safady Simão foi o mais radical. "Não adianta negociar nada, temos que montar uma estratégia urgente para detonar o projeto", disse. Ganhou o apoio imediato de Butori. "O lado de lá é muito mais forte, porque junta o governo e as grandes centrais sindicais. Já começamos o jogo perdendo por dois a zero. Se abrirmos negociação, pode ser pior. Esta reforma precisa esperar outro governo", disse. Um tom abaixo, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf propôs deixar uma porta aberta. "Nossa estratégia passa por uma ação forte no Congresso, no sentido de mostrar que sem reforma trabalhista, não pode ter reforma sindical. Se chamam isso de abortar, então é abortar". Coube a Monteiro Neto e a Gerdau, desta vez, o papel de moderados. "Detonar o projeto é proibir o Congresso de discutir o assunto e isto não é razoável. É preciso ganhar tempo na Câmara para acelerar a discussão da reforma trabalhista no Fórum Nacional do Trabalho, ou na pior hipótese, atuar pontualmente sobre os piores aspectos", disse o presidente da CNI. "Eliminar o que está aí é muito difícil. Vamos fazer um esforço pela correção", concordou Gerdau. Monteiro Neto argumentou que a negociação se tornou mais provável depois da vitória de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara. "O Congresso vive um momento, a partir da eleição da Mesa, em que se busca readquirir autonomia frente ao governo", sugeriu. De acordo com o deputado e dirigente, o primeiro momento para atuar será junto aos líderes da base governista e da oposição. "É preciso que a representação partidária na comissão especial que vai analisar a proposta tenha sintonia com o setor produtivo", disse.