Título: Oferta de compra de voto chegou a 11 milhões
Autor: Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Política, p. A9

Na campanha eleitoral de 2004, 11 milhões de eleitores foram alvo de tentativas de compra dos seus votos, com pagamento em dinheiro ou bens materiais. O contingente representa 9% do total de brasileiros que foram às urnas escolher prefeitos e vereadores. O dado foi revelado em pesquisa encomendada pela Transparência Brasil e pela União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (Unacon) ao Ibope. O número de eleitores vítimas do assédio para compra de votos é significativo, segundo os analistas da pesquisa. O universo de 11 milhões de pessoas seria o terceiro maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo (27 milhões) e Minas Gerais (13 milhões). A região onde ocorreu o maior número de ofertas de dinheiro ou bens materiais em troca de votos foi o Sul: 12% dos eleitores de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul disseram ter recebido algum assédio por parte dos candidatos. "A liderança da região Sul é uma surpresa pelo desenvolvimento sócio-econômico dos estados que a compõe", diz Cláudio Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, que divulgou ontem os dados da pesquisa. Em segundo lugar, aparece a região Nordeste, com 11% de eleitores assediados. As regiões Norte e Centro-Oeste, com 9%, vêm em seguida. Os eleitores da região Sudeste foram os que menos apontaram tentativas de compras de votos: 5%. Os números crescem muito quando os entrevistadores perguntam aos eleitores sobre o uso da máquina administrativa para conseguir votos. Na região Sul, a prática foi observada por 12% dos eleitores, contra 11% no Nordeste. O oferecimento de dinheiro e bens materiais aos eleitores se deu de forma semelhante nas pequenas e nas grandes cidades. O mesmo ocorreu nas cidades do interior, periferias e capitais. A diferença acontece no uso da máquina administrativa: 8% dos eleitores de cidades com menos de 20 mil habitantes apontaram essa prática contra apenas 4% dos moradores de municípios com mais de 100 mil. Da mesma forma, o crime foi mais observado pelos votantes do interior e das periferias (7% e 6%, respectivamente) do que das capitais (3%). O público mais procurado pelos candidatos é formado pelos eleitores de 16 a 24 anos: 12% dos jovens admitiram ter recebido ofertas em dinheiro e 9% observaram o uso da máquina. A menor incidência foi entre eleitores com mais de 50 anos. "É preciso aumentar a participação da fiscalização, com investimentos do governo na área para melhorar esse quadro", diz Fernando Antunes, presidente da Unacon. Abramo vai além: "No Brasil, a Justiça Eleitoral não toma medidas para combater o crime de compra de votos. Uma pesquisa como essa deveria ser feita pelo Tribunal Superior Eleitoral".