Título: Dirceu e Palocci divergem sobre reforma
Autor: Raymundo Costa e Henrique Gomes Batista
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Política, p. A10

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva finaliza de hoje para amanhã a segunda reforma ministerial de seu governo, tendo como pano de fundo, como na primeira, a disputa entre os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antonio Palocci (Fazenda) e entre os principais candidatos do PT ao governo do Estado de São Paulo. Ontem, o presidente conversou com o ministro Amir Lando, que será substituído na Previdência Social pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR). Para finalizar a reforma, o presidente precisa encontrar um lugar para acomodar o PP. O nome mais forte da sigla é o do deputado Ciro Nogueira (PI), indicado pelo presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PE). "Nós queremos Comunicações", disse Severino. "Essa é a Pasta que foi inicialmente oferecida, mas nós trabalhamos com as Comunicações desde que o ministro tenha autonomia", afirmou o presidente do PP, Pedro Correia (PE). A nomeação de Ciro Nogueira, para o ministério, além de agradar Severino Cavalcanti, poderia também resolver um problema do PT: com a derrota do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh na eleição para a presidência da Câmara, o partido ficou sem cargos na Mesa Diretora. Poderia ficar com o cargo de Ciro. A eventual nomeação de Ciro Nogueira para as Comunicações cria um problema: Eunício Oliveira, seu atual titular, teria de ser deslocado para o Ministério da Integração Nacional, para o qual a senadora Roseana Sarney (PFL-MA) esperava ser nomeada, com o aval do PT. Lula não quer demitir Olívio Dutra das Cidades, mas pode ter de fazê-lo para melhor acomodar Roseana e o PP. A senadora resiste à idéia de ocupar o Ministério do Meio Ambiente. A atual ministra, Marina Silva, está fragilizada no governo, onde vem colecionando sucessivas derrotas. Um exemplo é a aprovação da Lei da Biossegurança em termos com os quais ela decididamente não concordava. Além de Ciro Nogueira, o PP apresentou outros nomes: João Pizzolatti (SC) - preferido pela bancada - e Pedro Henry (MT) ainda estão no páreo. O líder José Janene (PR) está queimado no Planalto, mas tentou impor o próprio nome. Lula nem sequer o recebe. Deixa a tarefa para o ministro José Dirceu. Falta resolver também o que fazer com o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, que já admite assumir outra Pasta no governo. Defesa e Trabalho são as opções mais faladas. A Coordenação Política volta para o PT, mas ainda não está claro em que termos. É a indefinição provocada pela disputa Dirceu-Paloci e entre os candidatos ao governo de São Paulo. O ministro José Dirceu gostaria de ter no o cargo o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara dos Deputados. Mas o senador Aloizio Mercadante estabelece a condição de que o deputado desista de sua pré-candidatura em São Paulo, o que o ex-presidente da Câmara não aceita. Em uma da série de reuniões para discutir a reforma ministerial, Lula teria pedido aos ministros do PT que integram a coordenação política que não sejam candidatos em 2006. Todos teriam concordado, o que retiraria Dirceu e Palocci da disputa. Teria sido um recado a José Dirceu, pois Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) já não é mesmo candidato, Luiz Dulci (Secretaria-Geral) admite ficar sem mandato e Palocci, pela situação delicada que seria provocada por sua substituição, dificilmente deixará a Fazenda. Além disso, é voz corrente no PT que Lula já teria feito uma opção pela candidatura de Mercadante. Poucos no PT acreditam que a promessa dos ministros Dirceu e Palocci seja levada até o fim. Dois sinais: a atuação de Dirceu na eleição para a presidência da Assembléia Legislativa de São Paulo, ajudando a derrotar o candidato de Geraldo Alckmin, e a correspondência enviada por Palocci ao Senado informando que Marta Suplicy descumpriu a Lei de Responsabilidade Fiscal. Aliados de Palocci no PT dizem que, na realidade, o ministro deve apoiar Marta na sucessão paulista e o que deve ser avaliado não é a correspondência ao Senado, mas a edição da medida provisória com data retroativa para dar uma saída a Marta na questão da dívida assumida na prefeitura. O difícil é convencer a própria Marta, que julga ter sido vítima de fogo amigo por causa da sucessão. Palocci, por outro lado, defende que a articulação política do governo fique com José Dirceu, mas sem a coordenação de governo. Dirceu, por seu turno, tem sugerido o nome do atual ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, para a presidência do Banco do Brasil, mesmo sabendo que há restrições estatutárias à sua nomeação. Berzoini não tem curso superior. O ministro da Fazenda quer manter como está o comando do BB. O racha no PT aparece também nas indicações para o Ministério do Planejamento, pasta rejeitada seguidamente por PTB e PMDB. Se depender de Palocci, o presidente Lula indica o deputado Paulo Bernardo (PT-PR), um de seus mais fiéis aliados na Câmara. Já o presidente do PT, José Genoino, e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, pressionam Lula para nomear o candidato petista derrotado na eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, Jorge Bittar.