Título: IBGE revela crescimento do desperdício na agricultura
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Agronegócios, p. B11

Estudo inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre perdas agrícolas, divulgado ontem, revela que o país perdeu impressionantes 81,5 milhões de toneladas de grãos de arroz, feijão, milho, soja e trigo nas fases de pré e pós-colheita das safras agrícolas entre 1996 a 2003. Deste total, 28 milhões de toneladas foram desperdiçados na pré-colheita, ou 5% do potencial de produção, enquanto 53,3 milhões de toneladas foram perdidas na pós-colheita, 8,7% da produção total dos cinco grãos no intervalo. Para Júlio Perruso, gerente de análise e planejamento da coordenação de agropecuário do IBGE, essas perdas, principalmente no pós-colheita, são semelhantes às de outros países da América Latina, já que decorrem de problemas de logística de transporte e capacidade de armazenagem, comuns na região. De acordo com Perruso, também é um nível similar ao da China, país igualmente com grande território e logística precária. Em relação aos países desenvolvidos, porém, o técnico avalia que as perdas brasileiras são imensas. "Nesses países, as perdas no pós-colheita são muito menores por conta de uma boa infra-estrutura de transporte e armazenamento. Na pré-colheita, os EUA, por exemplo, têm tecnologia altamente avançada de métodos de irrigação e combate a pragas, dependendo menos de fatores climáticos, que colaboram para o desperdício". Perruso acredita que as perdas na agricultura brasileira tendem a aumentar nos próximos anos, principalmente depois da safra colhida, caso não sejam feitos em tempo recorde investimentos em transporte e armazenagem, sendo que esta última está com a capacidade instalada próxima do limite. Ele observa que 67% das cargas brasileiras são transportadas por rodovias, o modal menos vantajoso para longas distâncias. No tocante à armazenagem, a Pesquisa de Estoques feita pelo IBGE levantou uma capacidade efetiva de silos no país de 72,04 milhões de toneladas, ante as 94,08 milhões de toneladas de capacidade estática apuradas pela Conab. Em 1997, as perdas nos cultivos dos cinco grãos estudados somaram 6,6 milhões de toneladas. Em 2003, foram 9,3 milhões. Ou seja, o desperdício cresceu 41% em sete anos, corroborando o prognóstico pessimista do gerente do IBGE. A pesquisa do IBGE mediu, ainda, a disponibilidade interna dos cinco grãos e a disponibilidade interna per capita (quilos/ano) de arroz, feijão e trigo para consumo no país, tanto humano quanto animal. Para este cálculo, é imprescindível medir as perdas pós-colheita, bem como os grãos que serão usados para sementes e estoque final. As quantidades disponíveis per capita de arroz beneficiado, farinha de trigo e feijão, que integram a cesta básica do país, não podem ser confundidas com o consumo efetivos desses grãos pela população, já que, como destaca Perruso, há desperdício desses produtos no varejo e na elaboração dos alimentos, inclusive nas residências. A disponibilidade per capita de farinha de trigo, de 38,08 quilos em 2003, foi considerada elevada pelo IBGE, confirmando o gosto do brasileiro por pão e massas. Também é alta a disponibilidade interna de arroz (40,37 quilos/ano em 2003). Arroz e farinha de trigo têm alto teor de carboidratos e energético. A disponibilidade per capita do feijão é menor (17,69 quilos em 2003), apesar de o produto ser um símbolo da culinária nacional. Comparados esses dados de disponibilidade doméstica com a polêmica Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2002-2003, observa-se que a POF apresenta um consumo domiciliar per capita de arroz de 25,24 quilos por ano, mas isso porque a POF só apura o consumo nas residências. No feijão, a POF estima consumo per capita de 12,76 quilos anuais, abaixo da disponibilidade interna. No caso da farinha, não houve base de comparação possível. Segundo Perruso, o estudo das perdas é fundamental para que se possa traçar uma política de segurança alimentar, principalmente para setores do governo que estudam oferta e demanda de produtos agrícolas. "O problema do alimento e da renda no Brasil é de distribuição".