Título: Indústria paulista lança novo fundo de recebíveis
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2005, Finanças, p. C3
Pequenos e médios industriais dos setores eletroeletrônico e de autopeças poderão captar recursos a um custo mais baixo, através da securitização de recebíveis. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) contratou o Banco Pactual para estruturar um novo Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC, mais conhecido como fundo de recebíveis) que vai abrigar faturas de vendas de 20 pequenos e médios fornecedores de 10 grandes indústrias, entre elas a fabricante de chuveiros Lorenzetti e a gigante alemã de equipamentos Siemens. O FIDC da indústria está sendo montado para captar, a princípio, R$ 200 milhões, valor que pode ser ampliado dependendo da demanda dos investidores. "Há várias instituições que têm interesse em investir em crédito", garante Paulo da Graça Cunha, diretor do Pactual, que já colocou cinco FIDC no mercado e está trabalhando na estruturação de dez novas carteiras. Os recebíveis são cedidos pelas indústrias ao fundo, composto de cotas sênior e subordinadas. Isolados do risco de crédito dos cedentes, os recebíveis podem ser trocados a uma taxa menor. Claudio Luiz Miquelin, diretor de crédito do Ciesp e idealizador da iniciativa, calcula que, no final, a operação terá um custo médio de 130% a 135% da variação do CDI para os pequenos industriais que cederam os recebíveis para a carteira do fundo. Atualmente, diz Miquelin, as empresas de perfil médio e pequeno, com faturamento máximo de R$ 15 milhões por ano, não conseguem dinheiro em bancos por menos de 200% do CDI, "quando conseguem". "A pequena e média indústrias têm dificuldade em transformar suas duplicatas em dinheiro porque os bancos fazem muitas exigências além de cobrarem um juro alto", afirma Ruy de Salles Cunha, presidente da Associação Brasileira da Indústria Eletro Eletrônica (Abinee). "Com esse acordo, eles vão obter desconto de duplicatas em condições privilegiadas, pagando um juro mais baixo", afirma Cunha. A decisão de criar o FIDC das indústrias envolveu um apoio institucional das entidades que reúnem as empresas de ambos os setores (Abinee e Sindipeças), coordenados pelo Ciesp. Eles convenceram as grandes empresas de ambos os setores a selecionar os fornecedores de melhor perfil de crédito e garantir a aceitação de suas duplicatas. O aceite das duplicatas pelas indústrias que compram os insumos produzidos pelos pequenos empresários é a chave para atrair os potenciais investidores para as cotas do fundo, explicou Paulo Cunha, do Pactual: "Ajuda a dar qualidade ao processo", explicou. O interesse das grandes indústrias na operação é fortalecer seus fornecedores, garantindo o suprimento de insumos, explica Miquelin. A estrutura "blindada" contra o risco dos emissores das cotas, somada a uma rentabilidade maior que a média dos ativos de renda fixa disponíveis no mercado, é o chamariz para os investidores, explicou Cunha. A cessão de recebíveis para o FIDC é definitiva e os pagamentos das faturas caem direto na conta do fundo, sem passar pelo cedente dos títulos. Essa estrutura é a responsável pelo forte crescimento dos FIDC no país, que já acumulam cerca de R$ 7 bilhões em patrimônio, desde que foram lançados pela primeira vez em 2003.