Título: Carnes do Brasil sem cotas na Rússia
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 04/01/2005, Agronegócios, p. B8
Apesar das gestões do governo federal, a Rússia manteve o Brasil sem participações específicas em seu sistema de cotas de importação de carnes de 2005. Os volumes destinados a "outros fornecedores", que inclui o Brasil, foram praticamente mantidos ou até recuaram em relação a 2004, também contrariando a solicitação brasileira para que fossem elevados. A decisão russa pode fazer com que o Brasil dependa novamente do surgimento de problemas sanitários em países concorrentes para ter um bom desempenho no mercado russo, admitem exportadores. Os volumes para 2005 foram publicados num comunicado no diário oficial do governo russo no último dia de 2004, segundo a Reuters. De acordo com o comunicado, a cota global de importação de frango ficou inalterada em 1,05 milhão de toneladas. Os Estados Unidos terão uma fatia de 771,9 mil toneladas, mesmo volume a que tinham direito no ano passado. A União Européia ficou com 205 mil toneladas. Eram 210 mil em 2004. Para o Paraguai foi mantida a cota de 5 mil toneladas. Para "outros fornecedores", foi mantido um volume de 68,1 mil toneladas. A cota para importação de carne suína saiu de 467,6 mil toneladas, em 2004, para 450 mil toneladas este ano. A fatia da UE aumentou de 227 mil toneladas para 236 mil toneladas e a dos EUA, de 42,2 mil toneladas para 53,8 mil toneladas. O Paraguai continua com sua fatia de 1 mil toneladas, e o volume para "outros" diminuiu de 179 mil toneladas para 176,6 mil toneladas. "É um sinal negativo, já que os volumes cresceram para Europa e EUA e caíram para 'outros'", comentou Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs (que reúne exportadores de carne suína). Ontem, o Itamaraty ainda não havia sido comunicado sobre as cotas russas para 2005, e a embaixada russa no Brasil estava em recesso. No caso da carne bovina, segundo informou a Reuters, a cota russa para o produto congelado foi elevada para 430 mil toneladas. Eram 420 mil toneladas em 2004. A de carne bovina resfriada ficou inalterada em 27,5 mil toneladas. A União Européia ficou com a maior parte da cota, com 339,7 mil toneladas, 20 mil a menos que em 2004. Os EUA poderão embarcar 17,7 mil toneladas de carne bovina e o Paraguai manteve as 3 mil toneladas de 2004. A fatia de "outros" ficou em 69,6 mil toneladas, pouco acima das 68 mil de 2004. Cláudio Martins, diretor-executivo da Abef (que reúne exportadores de frango), diz que, após a decisão, a diplomacia brasileira tem de endurecer com a Rússia nas negociações para apoiar a entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo vinha utilizando o apoio à entrada do país como moeda de troca nas negociações sobre as cotas. Martins afirmou que em 2004, apesar da cota restrita, o Brasil acabou vendendo cerca de 180 mil toneladas de frango para a Rússia até novembro. O país foi beneficiado pela influenza aviária na China e porque EUA e Rússia estavam discutindo um modelo de certificado sanitário. Esses países não conseguiram cumprir a cota e o Brasil foi favorecido, explicou o executivo. Camargo Neto também comentou que o Brasil exportou mais carne suína do que a cota destinada a "outros" em 2004 devido à sua competitividade e à dificuldade de outros países de cumprirem a cota. E isso deve se repetir este ano, avalia. Até novembro, os russos compraram 263,5 mil toneladas do Brasil, segundo a Abipecs. Representantes da Abiec (reúne exportadores de carne bovina) não foram encontrados para comentar as cotas russas. As exportações para a Rússia também ficaram acima do definido na cota de "outros", até mesmo com o embargo russo às carnes brasileiras. Somaram até novembro 217 mil toneladas.