Título: Campo pressiona pouco a inflação
Autor: Fernando Lopes
Fonte: Valor Econômico, 04/01/2005, Agronegócios, p. B8
Se os preços agrícolas não ajudaram a reduzir os principais índices que medem a inflação no país em 2004, como aconteceu em 2003, também não chegaram a determinar fortes disparadas dos mesmos indicadores no ano, numa acomodação que deve perdurar nesses primeiros meses de 2005, conforme especialistas. "Os preços agrícolas não foram um problema para a inflação em 2004, e o cenário permanece o mesmo", diz Juarez Rizzieri, coordenador-adjunto do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC/Fipe). Rizzieri diz que pesam em sua previsão o baixo patamar das cotações internacionais de commodities como soja e milho e a valorização do real sobre o dólar. Segundo ele, também ajudaram a evitar fortes altas de preços agrícolas no mercado interno em 2004 reduções das importações de soja pela China e de carnes pela Rússia. "Mas a maior demanda doméstica, principalmente no fim do ano, serviu como compensação".
O relativo equilíbrio entre o comportamento das cotações agrícolas domésticas médias e a inflação, em 2004, pode ser medido pelo índice de preços recebidos (IPR) pelos produtores de São Paulo, pesquisado pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) - vinculado à Secretaria de Agricultura do Estado. No acumulado de 2004, o IPR registrou variação positiva de 9,64%, enquanto o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) subiu 12,41% e o IPC/Fipe, 6,44% (variação estimada pelo IEA). Em 2003, a alta do IPR foi de 1,81%, e IGP-M e IPR subiram mais de 8%. Nelson Martin, diretor do IEA, prevê que os preços domésticos de grãos e fibras seguirão pressionados no primeiro semestre, e acredita que o ritmo de comercialização da safra brasileira recorde de soja terá reflexos no IPR. "O Ministério da Agricultura não conseguiu, no Orçamento, os R$ 2 bilhões adicionais para financiar a safra. No caso da soja, isso significa que a concentração das vendas pode gerar novas quedas de preços". Martin crê que produtos de exportação que estão com cotações sustentadas, como carnes, açúcar, café e laranja, deverão seguir na mesma toada. E que produtos de mercado interno, como arroz e feijão, deverão encontrar suporte na maior demanda doméstica.