Título: Unibanco lucra com crédito ao consumo
Autor: Maria Christina Carvalho
Fonte: Valor Econômico, 04/01/2005, Finanças, p. C8

Pioneirismo sempre foi uma marca do Unibanco. Muito antes da atual investida no financiamento ao consumo, já em 1996, o Unibanco comprou a primeira metade da Fininvest, seu braço na área de consumo, assumindo o capital total em 2000; e, em 1997, adquiriu o Dibens, especializado em financiar automóveis. Durante alguns anos, o pioneirismo cobrou seu preço porque as turbulências econômicas inibiram o crescimento do crédito ao consumo. Mas, na retomada em 2004, o Unibanco estava bem preparado. "O financiamento ao consumo já responde por um quarto a um terço dos resultados e absorve 55% dos ativos de crédito", disse o presidente, Pedro Moreira Salles. Nos primeiros nove meses do ano passado, o resultado somado da Fininvest, LuizaCred, parceria com o Magazine Luiza, PontoCred parceria com o Ponto Frio, e Unicard totalizou R$ 278 milhões e representou 30% do lucro de R$ 908 milhões do banco. O retorno desses investimentos chega a 46% no caso da LuizaCred e 41,5% da Fininvest, bem superior aos 16,4% obtidos pelo banco. "Nosso negócio de financiamento ao consumo tem hoje certamente o maior resultado sobre o patrimônio líquido de todos os negócios do banco", disse o banqueiro. Moreira Salles prefere "as parcerias que envolvam posições societárias, porque realmente alinham os interesses", às que estão sendo anunciadas nas últimas semanas. "O que houve recentemente foi uma seqüência de anúncios de operações que, em sua essência, são pequenas, mas foram apresentadas como se alterassem o destino dos grandes bancos. Há um pouco de marketing." Para ele, é óbvio porque o financiamento ao consumo está despertando atenção agora: "Esse é um negócio muito aderente a um ciclo econômico. Depende de estabilidade e de crescimento. O Brasil já tem mais de dez anos de estabilidade com o Plano Real, mas passamos por vários períodos de turbulência que fizeram com que o crescimento econômico fosse interrompido pelo menos duas vezes. Se agora, como parece ser o caso, podemos vislumbrar alguns anos de crescimento econômico, certamente o financiamento consumo se beneficiará". O presidente do Unibanco está concentrado no crescimento orgânico, por meio da expansão da rede de agências, e no desenvolvimento do potencial oferecido pelas parcerias. O banco tem 6,3 milhões de clientes, mas as parcerias agregam mais 11,1 milhões. Além disse, persegue a meta "2-10-20", que é obter R$ 2 bilhões de lucro em 2006 e chegar a R$ 10 bilhões de patrimônio em 2006, dando ao acionista um retorno de 20%. A seguir, os principais pontos da entrevista: Valor: Quais são os projetos do banco para 2005? Pedro Moreira Salles: É a hora do crescimento orgânico, sobretudo no caso de varejo, por meio da abertura de pontos de venda. Temos um plano de crescimento da rede de agências que será feito sobretudo nas regiões onde o Unibanco não tem presença forte; e temos uma série de projetos com os parceiros do mundo do varejo. O Unibanco foi pioneiro no desenvolvimento de parcerias e também na identificação da importância do mercado de financiamento e tem hoje uma posição estratégica importante em todos esses mundos, nos quais pretende crescer. Valor: Não teria o Unibanco se adiantado no tempo nas parcerias com empresas de varejo? Moreira Salles: O banco identificou isso na frente sim e estamos muito satisfeitos com isso. A compra da primeira metade da Fininvest foi em 1996; a compra do Dibens, especializado no financiamento de automóveis é de 1997; a compra da segunda metade da Fininvest foi feita em 2000. E essa é uma empresa que cresceu muito. Desde 2001 seus resultados quadruplicaram. Nosso negócio de financiamento ao consumo tem hoje certamente o maior resultado sobre o patrimônio líquido de todos os negócios do banco e contribuições muito relevantes para o resultado final, de um quarto a um terço. Valor: Por que o resto do mercado acordou para isso somente agora? Moreira Salles: É óbvio porque esse assunto está tão em voga agora. Esse é um negócio muito aderente a um ciclo econômico: depende de estabilidade e de crescimento. O Brasil já tem mais de 11 anos de estabilidade com o Plano Real, mas passamos por vários períodos de turbulência que fizeram com que o crescimento econômico fosse interrompido pelo menos duas vezes. Se agora, como parece ser o caso, podemos vislumbrar alguns anos de crescimento econômico, certamente esse setor se beneficiará.

Prefiro as parcerias que envolvem posições societárias porque de fato alinham os interesses"

Valor: Por que o Unibanco apostou antes no negócio? Moreira Salles: Quando se toma decisões estratégicas de aquisição, que são decisões de investir no país, se acredita que os ciclos serão positivos. Você não investe acreditando que o portfólio é defensivo e que ganharia com o país em recessão. Tem que ter a visão de um país que dá certo, baseada na premissa de que o país evolui, cresce, gera renda e a distribui; e aí entra o componente de crédito. O Unibanco vem fazendo essas aquisições sistematicamente. Não é uma coisa recente. A última foi a do HiperCard, no início de 2004, em parceria com o Wal-Mart, que também vem dando frutos. Valor: O que isso significou? Moreira Salles: O Unibanco é hoje a operação certamente mais complexa e exigente porque é muito maior. O banco abraça várias áreas, do crédito de valor unitário baixo até as operações de atacado e as sofisticadas operações de mercado de capitais. Quando a gente olha o cenário para frente, acho que ele vem ratificar o posicionamento do banco, que deixou de ser majoritariamente de atacado, que chegou a representar cerca de 70% dos ativos de crédito. Antes do Plano Real, o Unibanco tinha de 800 mil a 900 mil clientes e 400 agências. Na virada para 2005, o banco tem provavelmente 55% dos ativos no varejo e obtém de um quarto e um terço do resultado nessa área. Tem 1,5 mil pontos de venda sob marca própria e 10 mil com os parceiros; e relacionamento com 17 milhões de clientes. É um múltiplo de 20 vezes em 11 anos. Uma operação essencialmente diferente, muito mais voltada para um país que cresce e se desenvolve, e muito mais universal. Não tínhamos seguradora, cartão de crédito, financeira de consumo. Esse portfólio é fruto de crescimento orgânico e de aquisições e posiciona o banco de modo muito sólido para um país que, esperamos, conseguirá agora mostrar anos seguidos de crescimento econômico, de maior penetração do crédito na sociedade, como a gente já vem sentindo neste ano. Valor: Qual sua previsão de crescimento para 2005? Moreira Salles: O número com o qual o banco trabalha é de 4%. Valor: Esse ritmo de expansão deve continuar nos anos seguintes? Moreira Salles: É muito difícil olhar um período muito longo porque o Brasil ainda tem uma agenda de reformas que precisam ser realizadas para se ter de fato uma economia menos sujeita a stop and go, ao famoso vôo de galinha. Para evitar isso, o país tem que estimular um maior grau de poupança e gerar mais investimentos. Valor: O que é necessário? Moreira Salles: O país tem que fazer, em algum momento, de alguma maneira, uma reforma fiscal que estimule a poupança e o investimento, elimine distorções e anime as pessoas a desenvolver negócios. É preciso também uma reforma trabalhista que incentive os empregos. Valor: Quais são as perspectivas de o país avançar nesses pontos? Moreira Salles: Essa agenda está colocada. Nossos governantes e políticos entendem isso. É uma agenda que se resolve a curto prazo e dará condições ao país de alçar vôos mais longos e crescer. A gente não evita os ciclos econômicos, que afetam a todos; mas aquela fase de crises sucessivas, de fragilidades importadas, sobretudo via balanço de pagamentos, serão menos presentes. Valor: O que garante isso? Moreira Salles: O país se fortaleceu porque abraçou a racionalidade fiscal; tem um política monetária que combate de maneira sistemática os processos de percepção de inflação e uma agenda microeconômica que avança, às vezes aos trancos e barrancos, e dá confiança de que os assuntos serão tratados. O país tem condições de mostrar taxas mais sustentáveis.

Só os bancos estrangeiros que adquiriram rede de bom tamanho desenvolvem seus negócios e devem permanecer"

Valor: Quais são as conseqüências para os bancos? Moreira Salles: O papel do sistema financeiro é fundamental como intermediário dessa poupança. Toda a estratégia de redesenho do Unibanco nos últimos anos é baseada nisso. Valor: E a reestruturação de 2004, já está dando resultado? Moreira Salles: Sim, os processos decisórios são mais rápidos e temos uma integração interna muito positiva. Estamos nos propondo metas bastante ambiciosas de crescimento e resultados em 2005. Estamos a caminho dos 20% de retorno prometidos para 2006, quando pretendemos ter R$ 2 bilhões de resultado e R$ 10 bilhões de patrimônio. O banco está crescendo em vários de seus negócios, tem oportunidades relevantes a serem exploradas no mundo das agências, certamente algum mercado a conquistar no mundo das financeiras de automóveis, e no middle market. Valor: Isso passa por aquisições? Moreira Salles: Não há nada por aí que altere drasticamente a posição competitiva de qualquer um dos participantes relevantes desse mercado. O grande processo de consolidação já ocorreu, fruto de mudança radical de lucros e perdas com o fim da inflação. Houve sete ou oito anos de corrida desenfreada pela busca da escala necessária para um lucros e perdas que não vinha mais pelo lado da inflação e sim pelas receitas, fossem de tarifas ou de crédito, o que exige boa base de clientes. Foi por isso que houve essa mudança tão drástica no cenário financeiro, com privatizações, saídas e entradas de nomes relevantes, inclusive estrangeiros. O que houve recentemente foi uma seqüência de anúncios de operações que, em sua essência, são pequenas, mas apresentadas como se alterassem o destino dos grandes bancos. Há um pouco de marketing. Valor: Como o Unibanco vê isso? Moreira Salles: O Unibanco está seguindo o crescimento orgânico e por meio de parcerias que envolvam posições societárias de fato, que realmente alinhem os interesses. O banco prefere soluções com viés mais definitivo do que as fortuitas, causadas pelas circunstâncias. Valor: E a competição dos bancos estrangeiros? Moreira Salles: Aconteceu o que era natural prever quando se conhece a dinâmica de custos e receitas de uma instituição financeira. O fato de um grande banco vir para um mercado tão competitivo quanto o brasileiro não lhe assegurava nenhuma grande vantagem comparativa do ponto de vista de sua estrutura local de gerar resultado. Os estrangeiros que adquiriram bancos locais de dimensão subótima e tentaram crescer orgânicamente perceberam que era uma proposta muito cara e difícil de realizar. Os que vieram e adquiram rede de bom tamanho encontraram condições de desenvolver seus negócios e permanecerão. Valor: Você foi o primeiro a prever que alguns estrangeiros deixariam o mercado brasileiro Moreira Salles: Os bancos locais têm uma certa vantagem comparativa, que é o fato de estarem inseridos no país, para o bem e para o mal, o que significa que a questão do risco país não afeta de maneira muito relevante nosso processo decisório. Estamos aqui e não se interrompe relacionamento pelo fato de o banco estar passando por melhoras ou pioras. Quando você olha isso de outro continente é muito mais fácil decidir avançar ou recuar, mas isso certamente traz impacto nas relações de médio e longo prazo. Temos alguns estrangeiros muito competentes que têm escala para ficar no mercado; e temos um conjunto de bancos controlados localmente que resolveram investir em seus mercados e estão muito preparados para participar do crescimento. Valor: Quais são as lições da recente turbulência do mercado? Moreira Salles: O sistema financeiro reagiu bem porque já passou por vários ciclos de expurgos ao longo desses anos. Os bancos que aí estão são, em sua maioria, bem administradores, medem bem os riscos que aceitam correr e têm uma estratégia definida de quais mercados querem operar. Os bancos passaram pelo ciclo de alteração completa de lucros e perdas e os que saíram do outro lado são bancos fortalecidos, com escala muito maior, com uma base de cliente que permite inclusive operar dentro desses ciclos. Quando o país vai bem, o crédito fica mais favorável, quando o juro diminui tem o lado do ativo; quando o juro está alto, tem o lado do passivo, pode vender outros produtos. Esse é o processo de escolha e gestão que temos que tomar a cada dia.