Título: Investir também se aprende na escola
Autor: Luciana Monteiro e Daniele Camba
Fonte: Valor Econômico, 05/01/2005, EU &, p. D1

Saber como lidar com o dinheiro sem terminar todo mês no vermelho ainda é um desafio para a maioria dos brasileiros, mesmo para aqueles que ganham mais do que razoavelmente bem. Poupar, então, parece ser uma missão quase impossível. Na maioria dos casos, o problema não é a renda, dizem especialistas, e sim a falta de conhecimentos básicos para um bom planejamento dos gastos ou para evitar a decisão errada na hora de investir ou tomar um empréstimo. Por isso, muitos defendem a educação financeira como matéria obrigatória no ensino médio. Algumas escolas inclusive saíram na frente e já oferecerem esse tipo de orientação aos seus estudantes. Vários países já incluem a educação financeira nos currículos escolares. Em setembro de 2000, por exemplo, a Inglaterra instituiu como obrigatório o ensino do assunto da pré-escola até o ensino médio. Por aqui, algumas escolas particulares já oferecem o ensino financeiro para os alunos, mas as iniciativas nesse sentido ainda são isoladas. O ensino pode incluir desde noções básicas de economia, finanças pessoais e contabilidade em sala de aula até visitas às bolsas de valores ou de futuros. Uma das escolas é a Lourenço Castanho, em São Paulo, que há quatro anos trabalha educação financeira com seus alunos do ensino médio. A matéria é obrigatória e os alunos aprendem a calcular fluxo de caixa, juros, investimentos em renda variável, entre outros assuntos. "Ensinar educação financeira só na teoria não funciona", diz Osvaldo Ferreira, professor de economia do colégio. "Por isso, optamos por matérias mais ligadas ao empreendedorismo." No primeiro e no segundo ano, o estudante tem de gerenciar uma carteira fictícia de ações. No fim do ano, os alunos fazem um relatório para os "clientes" indicando os motivos que levaram o "gestor" a escolher determinado papel e as perspectivas de retorno. No último ano, o adolescente faz uma análise da economia brasileira desde os anos 90. Para concluir o curso, o aluno precisa simular que faz parte de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial de Comércio (OMC), apresentando-se a uma banca de professores. Mas não são apenas os adolescentes que têm acesso à educação financeira. A educadora com especialização infantil Cássia D'Aquino já criou e coordenou programas ligados ao tema em inúmeras escolas do país. "Quanto mais cedo se começa a ensinar como lidar com o dinheiro, melhor", diz a professora. Ela ressalta, no entanto, que o cuidado ao tratar o assunto também deve ser muito maior, já que a criança estará num processo de formação de personalidade. Cássia diz que, nessa fase, os contos de fadas são importantes instrumentos no ensino de educação financeira. "São fundamentais para a organização psíquica e na resolução de problemas", diz a educadora. "Lidar com o dinheiro nada mais é que fazer escolhas e saber as conseqüências dessas decisões." O programa desenvolvido por Cássia pretende, do maternal à 8ª série, iniciar a educação financeira das crianças ensinando-as como administrar as próprias finanças, como gastar, por que poupar e como doar tempo, talento e dinheiro. O programa preocupa-se, também, em reforçar conceitos de ética e responsabilidade social no ganho e no uso do dinheiro. "Adiar a gratificação, a satisfação do desejo, exige uma perspectiva de longo prazo e muito treino", diz. O consultor Cláudio Boriola, autor do livro "Paz, Saúde e Crédito" está promovendo um abaixo-assinado propondo a inclusão da educação financeira como matéria curricular no ensino médio público. O executivo, que é dono de uma empresa de renegociação de dívidas, diz que 70% dos clientes são reincidentes, ou seja, acabam voltando a dever. "Muitas pessoas fazem dívidas para pagar dívidas." Segundo pesquisa realizada em novembro do ano passado pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), 12% dos devedores que tiveram seu nome incluído na "lista negra" do Serviço Comercial de Proteção ao Crédito (SCPC) alegaram descontrole de gastos como motivo. Esse número chama atenção porque supera a inadimplência por perda de emprego de alguém da família, que representa 10%. O desemprego do titular da dívida ainda é a maior causa de atraso de pagamentos, com 50%. Apesar de o percentual causado pelo descontrole de gastos ser elevado, esse número já foi bem maior. Num levantamento da ACSP de setembro de 2002, o item representava 15%, conta Emilio Alfieri, economista da ACSP. "No início do real, quando o desemprego ainda não era tão alto, o descontrole passou a ser a principal causa da inadimplência." Agora, após dez anos de estabilização, o consumidor vem aprendendo na prática a fazer um melhor planejamento, avalia Alfieri. A falta de planejamento aparece claramente no aumento da inadimplência em janeiro, logo depois do pagamento do 13º salário, diz Fábio Pina, assessor econômico da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio). Ele lembra, porém, que o brasileiro não poupa devido aos baixos salários. Entre 90% a 94% da renda mensal vai para o pagamento de contas. E, dentro dessa fatia, há os que poupam ao mesmo tempo em que devem, um contra-senso já que o rendimento dificilmente supera os juros dos empréstimos. Na opinião de Boriola, é preciso dar a noção não só de como ganhar, mas de como gastar dinheiro. A idéia do projeto, diz, é unir o que os alunos aprendem em matemática à educação financeira. "Aprendemos o que são juros, mas não aplicamos no dia-a-dia." Boriola precisa de 1,8 milhão de assinaturas para encaminhar o abaixo-assinado para o Ministério da Educação. Hoje, ele tem aproximadamente 500. O documento está disponível na internet (no site www.boriola.com.br ). A educação dos investidores recebeu um reforço no ano passado com o lançamento do site "Como Investir" ( www.comoinvestir.com.br ), da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). O portal foi criado para auxiliar a formação do aplicador em fundos, mas planeja trazer em breve informações sobre debêntures, ações e CDBs. O presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marcelo Trindade, também já deixou claro que a educação dos investimentos está entre as prioridades da entidade em 2005. A idéia é lançar uma página na internet para ensinar a investir em fundos. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) também tem um amplo projeto de educação do investidor, que foi fortalecido com o processo de popularização do mercado. A principal ação do projeto, batizado de "Bovespa vai até você", são visitas e palestras nos mais variados lugares - fábricas, escolas, clubes e até praias. Segundo Luís Abdal, diretor de marketing da bolsa, foram realizadas palestras para mais de 180 mil pessoas. Outra iniciativa da bolsa é o "Programa Educacional", que visa ensinar sobre o mercado acionário aos alunos do ensino médio e universitário. No ano passado, a bolsa fez palestras para 90 mil estudantes, 50% mais que os 60 mil no ano anterior. Há dois anos, a Bovespa mantém uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo para ensinar sobre mercado aos alunos do ensino médio e fundamental das escolas estaduais. Em 2004, participaram 25 mil alunos, enquanto que em 2003 foram 15 mil. Segundo Abdal, a bolsa está em conversas com a prefeitura de São Paulo para estender o projeto para as escolas públicas municipais. A Bovespa também está fazendo parcerias com algumas faculdades para incluírem o mercado de capitais como matéria no primeiro ano. Em um primeiro momento, nos cursos do ramo de humanas - direito, jornalismo, publicidade e propaganda, letras - e depois para todas as áreas. A Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais de São Paulo (Apimec-SP) também investe na educação dos investidores. A entidade realiza todos os anos na capital paulista um curso gratuito para interessados em entender um pouco mais sobre o mercado financeiro. A previsão é de a própria turma comece em fevereiro. O curso acontece duas vezes ao ano. Outra importante ferramenta na formação do investidor foi a criação do Instituto Nacional do Investidor (INI), em agosto deste ano. Ele foi inspirado no National Association of Investor Corporation (NAIC), que existe desde 1951, e reúne 26 mil clubes de investimentos e investidores individuais, totalizando cerca de 300 mil associados.