Título: PFL teme que intervenção desgaste Maia
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2005, Especial, p. A16
O PFL teme pelo desgaste nacional da imagem do prefeito do Rio, César Maia, a partir da intervenção do governo federal em seis hospitais da capital fluminense. O prefeito, assumiu, em fevereiro, a presidência nacional do PFL e desde então se transformou na principal estrela do programa do partido que, diariamente, em cadeia nacional de rádio e televisão, critica o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Nesses programas, o prefeito tem abordado alguns dos pontos mais polêmicos da atual administração petista, como a cobrança dos inativos, o escândalo Waldomiro Diniz e a política de segurança pública. "As últimas pesquisas mostram um crescimento de Cesar na corrida presidencial. Foi uma manobra eleitoreira", diz o deputado federal José Carlos Aleluia (PFL-BA). Os pefelistas suspeitam que a intervenção tenha sido calculada em função da exposição nacional do prefeito. O Ibope vai colocar na rua esta semana seus pesquisadores para uma rodada de pesquisa de opinião sobre a popularidade dos presidenciáveis. Para o cientista político Fernando Abrucio, professor da FGV-SP e da PUC-SP, o desgaste da imagem do prefeito será maior nas demais cidades do Brasil do que propriamente no Rio. "Como Cesar Maia não tem história do ponto de vista nacional, sua popularidade ainda é muito restrita a cidade do Rio, as pessoas vão fixar as notícias do momento. E o noticiário tem mostrado pessoas morrendo nas emergências dos hospitais. Cesar Maia esticou demais a corda. Ele pensou que a União não iria assumir o caos da saúde, como não o fez com a questão da segurança pública. Foi um erro de estratégia", analisou Abrucio. O professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Marcus Figueiredo, concorda com Abrucio e lembra que já nas últimas eleições municipais a crise na saúde pública foi um dos temas mais explorados pela oposição durante a campanha. O próprio prefeito, no dia da posse, admitiu que a saúde foi um dos pontos fracos de sua última administração e garantiu que daria prioridade à área em seu novo governo. "Não se trata de discutir quem é o responsável pela atual situação, e sim, como isso está sendo explicado para a população. O desenrolar deste processo, leia-se intervenção, servirá de prato cheio para os adversários do prefeito na campanha eleitoral do próximo ano", disse Figueiredo. Cesar Maia não acredita que os recentes acontecimentos prejudiquem sua imagem, muito menos sua candidatura. "Não vejo razões para isso pois o ministério da saúde está fazendo exatamente o que eu pedia há dois anos. Se fez está ótimo. A questão política o tempo corrige", disse Cesar. De acordo com o deputado federal Chico Alencar (PT-RJ), Cesar Maia fez uma "aposta de altíssimo risco" ao iniciar uma queda-de-braço com União. "Ele está apostando no insucesso da intervenção federal. Mas esquece-se que a demanda nos hospitais municipais é muito alta e o reequipamento das unidades, as compras para as emergência têm apelo. Ele fez uma aposta sem ter um coringa na mão e vai ter que torcer pelo insucesso do processo", avaliou Alencar. Desde a intervenção, representantes do PT e do PFL disparam acusações mútuas. Para o ministro da Saúde, Humberto Costa, o prefeito quis criar um factóide político ao negar qualquer tipo de negociação com a União. Os pefelistas, por sua vez, justificam a intervenção como uma reação do governo federal à candidatura de Cesar Maia. Alguns deles chegaram a sugerir, inclusive, que o ministro optou pela intervenção, na tentativa de se manter no cargo. Em entrevista ao Valor, por e-mail, Cesar Maia, mais cauteloso, afirmou que não vê conotação política na intervenção. "Tenho certeza que não. Mesmo com os absurdos que ele (Humberto Costa) vem dizendo, o fato de o ministério reassumir os seus quatro grandes hospitais era uma absoluta necessidade", afirmou o prefeito. A intervenção é o ponto de maior desgaste na relação entre os pefelistas do Rio e os petistas do governo federal desde as eleições municipais, que havia marcado uma aproximação entre os dois partidos contra o inimigo comum, o secretário de governo, Anthony Garotinho. O movimento de aproximação entre os dois partidos começou quando o PT aprovou a entrada do PFL na frente que apoiava a candidatura do então deputado federal Lindberg Farias (PT-RJ), à prefeitura de Nova Iguaçu, e tomou força quando o PFL formalizou o apoio à candidatura vitoriosa de Godofredo Pinto, em Niterói.