Título: Troca de ministro mantém inalterada ofensiva no Rio
Autor: Raymundo Costa e Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 17/03/2005, Especial, p. A16

O governo federal manterá a ofensiva na crise da saúde do Rio de Janeiro, independentemente da substituição de Humberto Costa por Ciro Gomes no Ministério da Saúde. A ofensiva faz parte de uma estratégia de ocupação de espaços no Rio, traçada no Palácio do Planalto, que Costa tardou a executar, mas que agora serve de argumento para o PT tentar mantê-lo no cargo na reforma ministerial, cujo anúncio o presidente Lula resolveu adiar mais uma vez, possivelmente para segunda-feira. A demora de Lula vem permitindo ao PT se articular contra todas as mudanças discutidas no Planalto. Ontem, o partido e seus aliados de esquerda estavam em pé de guerra contra a eventual indicação da senadora Roseana Sarney (PFL-MA) para ocupar o lugar do ministro Aldo Rebelo (PCdoB-SP) na Coordenação Política. O movimento para manter Humberto Costa está mais adiantado e reuniu pelo menos um terço da bancada de 91 deputados do PT na Câmara, na noite de terça-feira. A intenção da bancada é correr um abaixo-assinado pedindo a manutenção do ministro. Entre outras coisas, argumenta com a atual intervenção de Costa no caótico sistema de saúde do Rio. A manifestação pode ter um ambiente propício durante a comemoração dos 25 anos do PT, marcada para o Recife (PE), terra do ministro, no sábado. No mínimo, o PT tentará passar a imagem de que Costa deixa o governo por cima, quando resolveu o problema da saúde no Rio. A estratégia do Planalto é ocupar espaços no Rio, muito menos pelo prefeito Cesar Maia, diretamente envolvido na atual queda-de-braço com o governo federal por causa da crise na saúde, e mais para fazer frente ao ex-governador Anthony Garotinho (PMDB), eventual candidato à sucessão de Lula em 2006. O presidente teve, no Rio, mais de 80% dos votos no segundo turno da eleição de 2002. Para tornar a presença do governo Lula mais visível, foram programados investimentos na área de saneamento, por meio do Ministério das Cidades, e a entrada de programas de transferência de renda como o Bolsa Família nos bolsões de pobreza da cidade. Nesse meio tempo se agravou a crise no sistema de saúde. Lula e o ministro José Dirceu (Casa Civil) exigiam uma ação contundente de Humberto Costa, que tardou a agir. Na véspera da intervenção no sistema hospitalar, o presidente do PT, José Genoino, em conversas no partido, também cobrava uma ação mais efetiva do ministro, já àquela altura um dos nomes cuja substituição era dada como certa na reforma. Segundo Genoino, Costa precisava "espanar". O ministro entrou, mas aparentemente muito tarde. Ciro Gomes, segundo o PT, tem muito mais o perfil para esse tipo de atuação que o discreto Humberto Costa. Em depoimento ontem na Câmara para explicar a crise da saúde no Rio, Costa preferiu lançar farpas sobre seu antecessor - o prefeito de São Paulo, José Serra. "Quero que meus antecessores provem que foram melhores do que eu. Aqueles que nos antecederam fizeram marketing e firula", disse. O ministro disse que não conversou em nenhum momento com o presidente sobre a reforma ministerial. Sobre sua eventual substituição, disse compreender que Lula precisa buscar "sustentabilidade política no Congresso e fora dele". E acrescentou: "Estou absolutamente tranqüilo cumprindo com a minha obrigação. O assunto de reforma ministerial compete única e exclusivamente ao presidente. Qualquer que seja a decisão dele terá o meu apoio integral". A idéia de nomear a senadora Roseana Sarney para a Coordenação Política surgiu, pela primeira vez, na noite de domingo, quando o presidente Lula se reuniu, durante cinco horas, com três ministros - José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e Luiz Gushiken (Comunicação do Governo) -, o presidente do PT, José Genoino, e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (SP). Quem tomou a iniciativa de indicar Roseana foi Mercadante, que não quer ver o cargo nas mãos do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) - ele e o ex-presidente da Câmara disputam a indicação do PT para o governo de São Paulo, em 2006. No encontro com Lula, a idéia não chegou a ser debatida. O presidente não fez comentários, mas José Dirceu ficou entusiasmado com a possibilidade. Na segunda-feira, Dirceu conversou novamente com o presidente, dessa vez a sós, e ouviu dele que a idéia era boa e solucionaria definitivamente o quebra-cabeças da reforma ministerial. Inicialmente, o plano do PT, nesse caso liderado pelo ministro Palocci, era convencer Lula a devolver a articulação política a Dirceu. Na sexta-feira passada, um governador do PT com prestígio no Planalto - Jorge Viana, do Acre -, em longa conversa com Lula, tentou convencê-lo de que o melhor para o governo seria nomear Dirceu. O presidente, no entanto, não concordou. Está resoluto: Dirceu permanecerá na Casa Civil, responsável pela gestão do governo. Diante disso, Dirceu começou a trabalhar para que João Paulo Cunha fosse para a Coordenação. O problema é que a resistência liderada por Mercadante é forte. Lula já teria decidido que o governo apoiará Mercadante em São Paulo. João Paulo, por sua vez, não aceita abrir mão da pré-candidatura. Para complicar, a ex-prefeita Marta Suplicy é pré-candidata, controla o PT paulista e anda às turras com o Planalto. Por tudo isso, mesmo os ministros que defendem João Paulo na Coordenação já começam a achar que sua nomeação trará problemas. Liberado pelo presidente, Dirceu começou a fazer consultas sobre Roseana e esbarrou imediatamente na resistência da cúpula do PT. Nomear Roseana contraria acordo firmado com o próprio Lula, no domingo, para manter a coordenação com o PT.