Título: Mercado ignora a Opep e petróleo bate novo recorde
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Fonte: Valor Econômico, 17/03/2005, Empresas &, p. B6

Como já previam os principais membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o aumento da produção por parte do cartel não é garantia de queda no preço da commodity. No mesmo dia em que os ministros da Opep, reunidos em Isfahan, no Irã, acertaram um aumento de 2% na oferta de petróleo, elevando os limites da produção em 500 mil baris/dia, para 27,5 milhões de barris/dia, o maior nível desde que o sistema de cotas foi introduzido em 1987, o preço do petróleo em Nova York foi o maior desde 1983. A boa notícia do aumento da produção não foi suficiente para reverter o pessimismo que tomou conta do mercado após a divulgação dos dados de estoque nos Estados Unidos. A Administração de Informação de Energia divulgou ontem que os estoques de gasolina recuaram 2,9 milhões de barris para 221,4 milhões na semana de 11 de março. A queda foi muito maior do que a expectativa média de analistas de recuo de 800 mil barris. Os estoques de petróleo bruto subiram em 2,6 milhões de barris, para 305,2 milhões de barris, na semana passada, alcançando seu nível mais elevado desde junho, segundo o departamento.

O barril do tipo WTI, negociado em Nova York, fechou o dia cotado em US$ 56,46, com alta de US$ 1,41. Na máxima da sessão, esses contratos atingiram US$ 56,50 - o maior nível para o primeiro contrato desde a estréia dos futuros de petróleo na NYMEX, em março de 1983. O novo recorde superou o do dia 25 de outubro de 2004, estabelecido em US$ 55,67. Em Londres, o petróleo tipo Brent encerrou com alta de 95 centavos de dólar, fechando a US$ 54,80 por barril - depois de alcançar o recorde de 54,95 dólares ao longo da sessão. O tipo Brent serve de referência para os custos da Petrobras. "É pouco o que a Opep pode fazer para elevar a disponibilidade do produto do mercado", disse John Kilduff, vice-presidente-sênior de administração de risco de combustíveis da Fimat USA de Nova York. "A Opep acabou se marginalizando. O aumento das cotas apenas chama a atenção para a sua falta de capacidade excedente." A decisão da Opep, anunciada pelo presidente do cartel, o xeque Ahmad, vai formalizar um estouro das cotas de produção da que já existem, pois a organização estão produzindo atualmente cerca de 27,65 milhões de barris/dia. O acordo também deu ao xeque Ahmad poder para desencadear outro aumento de 500 mil barris/dia até o fim do segundo trimestre. A Arábia Saudita, a peça mais importante da Opep, disse que qualquer cota maior seria acompanhada por um aumento da produção, com o reinado preparado para aumentar mais sua produção no mês que vem, a partir dos atuais 9,5 milhões de barris/dia. O Kuwait também disse que vai aumentar a produção em abril, a partir dos atuais 2,5 milhões de barris/dia. Ali Naimi, o ministro do Petróleo da Arábia Saudita, disse que os preços do petróleo deverão ficar entre US$ 40 e US$ 50 o barril para proteger o crescimento da economia mundial. Ele disse que o nível atual de US$ 55, referindo-se ao preço WTI, é muito alto. O acordo para o aumento da produção é uma medida preventiva do bloco exportador, que teme que se não conseguir atender a demanda mundial no segundo trimestre, o mercado poderá enfrentar um equilíbrio de oferta e procura mais apertado no segundo semestre. Os estoques de petróleo nos países desenvolvidos estão hoje em um nível suficiente para 51 dias de demanda, perto do que a Opep classifica como adequado. Um delegado da Opep disse que a queda normal no consumo mundial pode ter mudado com o surgimento da China como cliente de relevância. "Estamos olhando para essa tendência agora, e poderemos descobrir que a queda tradicional da demanda no segundo trimestre é uma coisa do passado", disse.